PAUTA CRIANÇA
Abril/98
Pastoral da Criança divulga dados nacionais sobre a infância

Entre 4 e 5 mil crianças menores de um ano foram salvas da morte em 1997 graças ao trabalho realizado por mais de 115 mil voluntários da Pastoral da Criança em todo o Brasil. Este é um dos resultados das atividades realizadas pela entidade no ano passado e demonstra a continuidade da eficiência do seu serviço, pois esses mesmos números já haviam sido alcançados em 1996. Outros resultados apresentados são a diminuição da desnutrição e o aumento no número de pessoas que ingressaram na entidade: em 1997 a Pastoral da Criança cresceu mais de 22% em número de voluntários e de crianças e gestantes acompanhadas.

Segundo a fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Dra. Zilda Arns Neumann, entre as 1.232.445 crianças carentes menores de 6 anos acompanhadas pela Pastoral por mês em 1997, a mortalidade infantil é menos da metade da média nacional. Os últimos dados oficiais disponíveis no Brasil são do Unicef (SMI/98), referentes a 1996, que apontaram uma média de mortalidade infantil no país de 44 por mil entre os menores de um ano de vida, e a projeção feita pelo IPEA/IBGE de que o Brasil terá uma mortalidade infantil de 39,2 por mil nascidos vivos no ano 2.000.

Entre as crianças acompanhadas pela Pastoral a mortalidade infantil em 1997 ficou entre 15,6 e 23,8 mortes por mil. Ou seja, para cada grupo de mil crianças acompanhadas pela Pastoral da Criança no ano passado 15,6 morreram antes de completar o primeiro aniversário. Agora, se forem consideradas todas as crianças que nasceram ou ingressaram na Pastoral em 1997, para cada grupo de mil crianças que nasceram no mesmo período morreram 23,8. "Isto superestimado devido à migração forte existente nas regiões de pobreza e porque a Pastoral da Criança é um organismo dinâmico e nas comunidades pobres vão entrando muitas gestantes e crianças com alto grau de complicações, especialmente pela desnutrição", esclarece a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns. Estes dados ganham ainda mais força se levar em conta que a Pastoral da Criança está presente exclusivamente em bolsões de pobreza e miséria, onde a mortalidade infantil costuma ser mais que o dobro da média nacional.

Entre 1996 e 1997, a Pastoral da Criança reduziu a mortalidade infantil em 9,2%; se tomarmos de 1995 para cá, essa redução foi de 32,7%; e de 1994 até final de 1997 a redução foi de 43,6%.

Contudo, lembra Dra. Zilda, a tendência agora é uma estabilização desses números, porque além das soluções que já são dadas através da prevenção, existem problemas estruturais que precisam ser melhor resolvidos e com urgência, como o saneamento básico, a miséria, além de melhor organização e acesso à assistência à saúde nos postos de saúde, maternidades e hospitais. "Estas medidas devem ser tomadas para que as taxas de mortalidade infantil no Brasil se igualem aos países desenvolvidos, entre 5 e 10 por mil", conclui a coordenadora.

Desnutrição

Os resultados alcançados pela Pastoral da Criança em 1997 indicam ainda que a desnutrição entre todas as crianças acompanhadas pela entidade ficou em 9%, enquanto a média nacional está em torno de 16%. Mas, além das crianças, a Pastoral acompanhou ainda mais de 60 mil gestantes por mês, em 25.610 comunidades organizadas em 2.824 municípios de todos os estados brasileiros. Dos 115 mil voluntários da Pastoral da Criança, 98.490 são líderes comunitários, dos quais mais de 90% são mulheres, que vivem nas próprias comunidades pobres do campo, áreas pesqueiras e periferias urbanas. São pessoas que recebem formação e material didático na área de saúde, nutrição, higiene, educação e cidadania e assumem o compromisso de acompanhar as famílias vizinhas, ensinando às mães e demais familiares os cuidados com a criança, além de remédios caseiros, alimentação enriquecida e outras ações que ajudam a reduzir a desnutrição e a mortalidade infantil.

Renda e Alfabetização

Uma das preocupações da Pastoral da Criança no ano passado foi o desenvolvimento integral da criança e a melhoria da qualidade de vida das mais de 840 mil famílias pobres acompanhadas por mês. Com isso, foram incrementados os projetos de alfabetização de jovens e adultos, que conta hoje com 33.329 alunos, e o de alternativas de geração de rendas, que tem 1.289 projetos em pleno funcionamento, beneficiando diretamente mais de 8 mil famílias que antes não tinham nenhuma opção de renda.

Desenvolvimento integral da criança e prevenção da violência e criminalidade

Da mesma forma foi incrementado o programa de educação essencial, que visa o desenvolvimento integral da criança através de estímulo e acompanhamento da integração social. Mais de 800 mil crianças menores de seis anos são acompanhadas permanentemente por este trabalho no país inteiro. Outro dado importante é que a Pastoral da Criança não tem conhecimento de que exista alguma criança na rua dentre as 840 mil famílias acompanhadas mensalmente em todo o Brasil. "A Pastoral previne a violência e a marginalidade, com grande alcance social", lembra Dra. Zilda, ao esclarecer que, segundo a OMS - Organização Mundial da Saúde, a criança maltratada no primeiro ano de vida tem mais tendência de se tornar uma pessoa violenta. "Com todo esse trabalho realizado pelos líderes comunitários com as gestantes e as crianças, especialmente as menores de um ano, onde o incentivo ao aleitamento materno é imprescindível, acontece a prevenção primária da violência e da criminalidade, projetando resultados extraordinários nesse conturbado contexto social em que vivem as famílias carentes", completa a coordenadora.

Custos e fontes

Para todo este trabalho, a Pastoral da Criança utilizou recursos da ordem de R$ 10.585.767,32 no exercício de 1997. Embora pareça muito dinheiro, é preciso lembrar que isso é quase nada tendo-se em vista a capilaridade e a abrangência nacional da entidade, que atua em 25.610 comunidades pobres de norte a sul do país. Levando-se em conta todos os recursos utilizados pela Pastoral da Criança, desde produção, impressão, copiagem e envio de materiais educativos gratuitamente a todos os líderes e coordenadores, os cursos e encontros de capacitação e reciclagem de centenas de milhares de pessoas e o acompanhamento em serviço, tudo tendo como objetivo final a criança, chega-se a um custo aproximado de apenas R$ 0,80 por criança/mês. "Todo esse trabalho é realizado graças a esta rede de voluntários e, se assim não fosse, jamais a Pastoral da Criança teria alcançado os resultados que vem tendo. Esses 115 mil voluntários, na maioria absoluta mulheres, promovem a saúde e a paz, participando dia e noite da construção de uma sociedade justa e fraterna, a serviço da vida e da esperança", enfatiza Dra. Zilda.

As principais fontes financiadoras da Pastoral da Criança em 1997 foram: Ministério da Saúde: R$ 7,7 milhões; Criança Esperança Rede Globo/Unicef: R$ 1,2 milhão; Ministério da Previdência e Assistência Social: R$ 766 mil; MEC/MEB: R$ 587 mil. O restante dos recursos vem de organizações nacionais e internacionais, tais como o FNUAP e ANAPAC - Associação Nacional de Amigos da Pastoral da Criança.

Presença em outros países

A Pastoral da Criança começou no Brasil em 1983 e já está presente em diversos países latino-americanos, com enorme sucesso, como é o caso do Paraguai, Peru e Equador. Em 1997, por indicação do UNICEF, Dra. Zilda esteve em Angola e Guiné-Bissau, treinando os primeiros coordenadores da Pastoral nesses países, seguindo a mesma metodologia brasileira.

Mais informações com Elson Faxina, Thays Poletto ou Katia Pichelli
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