Ano Internacional do Voluntariado
Trechos do discurso do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, na cerimônia de indicação da Pastoral da Criança para o Prêmio Nobel da Paz
Palácio do Planalto, Brasília, 09/01/2001
"... há uma série de coincidências que me fazem muito feliz de estar aqui, neste momento, assinando esta carta e ajudando a sociedade civil - porque disso se trata - a conseguir aquilo que é um merecido reconhecimento do trabalho extraordinário da Pastoral da Criança. A coincidência é a de que estamos comemorando, pela ONU, o Ano Internacional do Voluntariado (...). E Dom Paulo é testemunha de que fizemos uma das primeiras ONGs do Brasil, que foi o Cebrap. Isso já faz 26 anos. Temos, portanto, uma longa convivência no espírito de Voluntariado, de organizações públicas não governamentais.
Naquele tempo, o governo não reconhecia como parte do público o não-governamental. Hoje, o Ministro da Saúde, José Serra, acaba de dizer que, no nosso caso, reconhecemos o público como parte do não governamental. Estamos dispostos, sempre, a um trabalho de cooperação. Naquele tempo, não era assim. Havia uma certa animosidade entre o Estado e a sociedade civil. Mas havia já cooperação entre aqueles que estavam numa luta política, aqueles que estavam na vida acadêmica, como era nosso caso, e aqueles que estavam em uma crença religiosa, lutando por ideais também de solidariedade, de liberdade e de democracia. Agora, depois desses 26 anos, estamos vendo que as coisas mudaram. Mudaram, principalmente, porque a sociedade avançou muito no Brasil.
O Ministro José Serra disse que seria impossível para o governo fazer aquilo que está sendo feito pela Pastoral da Criança. Também seria impossível para a Pastoral da Criança fazer o que está fazendo se não houvesse apoio do governo. Essa cooperação, que tem que ser baseada em valores de solidariedade, de crença no próximo, de amor, é muito importante para a mudança de todas as instituições brasileiras. E o fato de estarmos aqui, todos juntos, inclusive o Pelé, que é uma figura simbólica, porque ele também é o embaixador da boa vontade na luta pelas crianças (...), é que as diferenças entre nós nos unem e isso é muito importante. É preciso que haja diferenças que unam, que permitam a convergência, que é o que estamos assistindo.
É verdade que se há um movimento que merece um prêmio como o Prêmio Nobel é exatamente a Pastoral da Criança .Pelas razões que foram ditas e que a Dra. Zilda mencionou, com muita propriedade, que não se trata apenas de atender à pobreza. É muito mais do que isso. É a formação da pessoa, da cidadania, dar valores às pessoas, fazer com que elas entendam que a vida tem que ser cuidada, tem que ser regada como uma plantinha. Isso tem que ser feito também com amor, com dedicação. É por isso que é possível fazer mais com menos recursos, porque não são ações que se façam friamente, burocraticamente. São ações que se fazem ungidas por um espírito de fraternidade, de amor, de crença na capacidade do ser humano de ajudar um ao outro.
São razões mais do que suficientes para que eu, como Presidente da República, e juntando-me a esse clamor que é da sociedade civil, venha pedir, como vamos pedir pelo mundo afora, que esse conjunto de pessoas que terão que decidir a entrega do Prêmio Nobel da Paz façam a justiça de premiar a Pastoral da Criança. (...)
Mas pode ter certeza de que no momento em que mais as pessoas se unem a isso, é porque todas essas pessoas, nós todos, queremos a mesma coisa: queremos o bem de cada pessoa humana, queremos que, com muita rapidez, diminuam ainda mais as taxas de mortalidade infantil, os níveis de desnutrição, as condições de pobreza se vão extinguindo.
José Serra – Ministro de Estado da Saúde
"A luta pelo Prêmio Nobel da Paz para a Pastoral da Criança é uma luta pela fraternidade. É um prêmio que representa o reconhecimento pelo seu trabalho e que sem dúvida promoverá o seu exemplo nos outros países, além de fortalecer o seu exemplo e o seu papel entre nós no Brasil. (...) Nós estabelecemos uma diferenciação entre o que é governamental e o que é público. O governamental abrange o público, mas nem tudo que é público é governamental. E é nesse caso que se inscreve todo o trabalho que é feito no Brasil, na área da saúde, por entidades não-governamentais. São públicas no sentido do acesso e da gratuidade. Isso é público e nós temos uma política ativa de fortalecimento dessas entidades públicas não-governamentais. No caso do Ministério da Saúde, elas são tratadas da mesma maneira que entidades governamentais no que se refere ao apoio que o governo proporciona. Isso é fundamental para o desenvolvimento e para o melhor atendimento da saúde no nosso país. Saúde é uma área que não pode caminhar apenas com a perna do governo. Tem que ter o lado da sociedade. (...) Isto realmente é fundamental e a Pastoral da Criança, neste sentido, é talvez o nosso melhor exemplo de ação não-governamental, fora da área hospitalar diretamente. (...) Se nós fôssemos desenvolver esse trabalho na área pública, a despesa que a Pastoral realiza seria, por baixo, multiplicada por 15 ou 20. Duvido inclusive que chegássemos à mesma qualidade do atendimento.(...) É um trabalho que tem a motivação da solidariedade. E nesse sentido ele extrapola a igreja católica porque faz parte de muitas religiões a idéia de que existem pessoas cuja felicidade só se realiza lutando pela felicidade dos outros."
(Excerto do discurso proferido durante a cerimônia
de indicação da Pastoral da Criança ao Prêmio
Nobel da Paz. Palácio do Planalto, Brasília, 09/01/2001)
Dra. Zilda Arns Neumann, coordenadora nacional da Pastoral da Criança
"Esse reconhecimento, expresso pela indicação da Pastoral da Criança, pelo Governo Brasileiro, ao Prêmio Nobel da Paz, eu gostaria que servisse como mais do que uma premiação da Pastoral, mas como uma premiação de todo o voluntariado do Brasil, de todas as entidades que trabalham com voluntários. E que o Brasil pudesse realmente sentir que não é só possível reduzir a mortalidade infantil, a desnutrição, a violência dentro da família, mas trabalhar juntos, juntar as religiões, os partidos políticos. Se nós olharmos para a frente, o futuro depende de nós, que estamos aqui. E todos nós, neste Ano Internacional do Voluntariado, temos muito a dar. (...) O mundo pode ser muito melhor se nós olharmos para ele com o olhar da fraternidade, onde todos tenham pão, todos tenham esperança e todos tenham dentro do coração a vontade de servir."