Olhos claros - pequenas continhas quase sumidas no rosto germânico
-, sorriso sempre aberto e
gestos comedidos. Zilda Arns Neumann, médica pediatra e sanitarista,
coordenadora nacional da
Pastoral da Criança, também representante titular da CNBB
no Conselho Nacional de Saúde,
também
coordenadora da Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher
e da Comissão Intersetorial
de Saúde
do Índio do mesmo Conselho, premiada várias vezes por organizações
como Unicef,
Unesco,
Opas, universidades, municípios, estados e governo federal do Brasil,
indicada em 2001
ao Prêmio
Nobel da Paz, inspira tranqüilidade e firmeza, doçura e força.
Viúva, mãe de cinco filhos
e avó
de oito netos, irmã de personalidades raras na vida religiosa brasileira,
como dom Paulo
Evaristo
Arns e dom Crisóstomo, é chamada simplesmente de 'dona Zilda'
pela população
ribeirinha
da Amazônia, pelas comunidades pobres do Sul do país, pelas
crianças do Nordeste que
só
conseguiram se manter neste mundo graças ao trabalho dos milhares
de voluntários da Pastoral.
Para
ela, o voluntariado é um estado natural do ser humano, que necessita
apenas ser despertado.
Dona
Zilda nasceu em 1934, em Santa Catarina,e foi lançada
"candidata à Presidência da
República
e candidata a santa" pelo jornalista Fritz Utzeri, em recente
artigo no Jornal do
Brasil.
"O que faz essa mulher para merecer a Presidência e até
a santidade?", pergunta o articulista,
e ele
mesmo responde: "Simples. Ela evita o aparecimento de anjos".'Simplicidade'
é também
uma
palavra muito cara a dona Zilda.
Depois
de conceder esta entrevista, desligados os gravadores, ela acrescentou
uma frase que
exemplifica
muito bem o seu modo de pensar: "A Pastoral só faz coisas simples
e fáceis de serem
replicadas
em grande escala". Talvez ela não pense na Presidência, muito
menos na santidade.
Mas
deve alegrar-se com uma história simples como o encontro das irmãs
Marta e Maria com
Jesus,
relatado no evangelho de Lucas. Enquanto uma era diligente, ativa e inquieta,
sempre
procurando
resolver rapidamente todas as coisas, a outra deixava-se ficar aos pés
do mestre para
ouvir
seus ensinamentos. "Mas por que tem que ser uma coisa ou outra?", deve
ter pensado nossa
entrevistada.
Reunindo a atividade de Marta e a devoção de Maria, dona
Zilda resolveu ser
marta-maria,
e não se fala mais nisso.
A equipe do
Pasquim21, composta por Ziraldo, Zélio, Luís Pimentel, Zezé
Sack e Caco Xavier,
convidou
para participar desta primeira entrevista os jornalistas Marcelo Auler,
Lena Frias e
Fritz Utzeri,
além de Fabio Pereira, estudante da PUC/Rio. Frederico Rozario fotografou.
Ziraldo - Eu
participei das inúmeras entrevistas que a gente fez para o velho
Pasquim e uma das mais
agradáveis
e inesquecíveis foi a do seu irmão, dom Paulo Evaristo Arns.
Foi uma das últimas e foi muito
importante.
Agora que estamos lançando um jornal com o mesmo nome do Pasquim,
sabemos que não é
a continuação
do antigo, porque o tempo é outro. Não existe continuação
com trinta anos de diferença, a
história
não se repete. A gente teve que decidir quem é que nós
iríamos convidar para a primeira entrevista,
e achamos
que uma das pessoas mais significativas desse país, hoje, é
a senhora. Foi unânime. A
pergunta
que eu vou fazer é a mesma que eu fiz quando nos encontramos lá
no Fórum Mundial Social, em
Porto
Alegre: qual é o segredo do estilo de vida e do destino da família
Arns?
Zilda
Arns - Eu creio que é a própria cultura da família,
meus pais, meus avós... Isso faz parte do métier,
da maneira
de ser. A gente já se criou assim. Até hoje, quando escuto
o badalar de um sino, me dá uma
sensação
muito agradável, levanta a alma.
Ziraldo - Sua família é de origem católica bem antiga?
Marcelo Auler - Já tinha religiosos antes dos seus irmãos?
Zilda
- Já tinha religiosos. Eu não sou a especialista da família.
Em família grande, todos têm sua
especialidade.
O frei Crisóstomo, meu irmão mais velho, e Otília,
minha irmã (que também foi professora de
universidade,
Ziraldo - Arns é um sobrenome germânico mesmo.
Zilda
- Arns é característico da nossa família. Se tem Arns,
é parente. Este sobrenome vem da região da
Mosela,
na Alemanha. Eu até estive lá em 94, e ainda hoje cultivam
uvas para vinho, fazem um vinho muito
gostoso,
que a gente bebe e não fica bêbado. Arns, August Arns. Ele
era irmão do meu bisavô.
Ziraldo - Fale um pouco mais de sua família, que é tão grande.
Zilda
- Meu pai foi fundador de Forquilhinha, uma cidadezinha de Santa Catarina
que nem aparece no
mapa.
Meus pais moravam em Capivari, que era cheio de morro. Vindos da Mosela,
eles queriam procurar
morros,
porque o vinho fica mais gostoso quando é de uvas de encosta. Então
foram para lá, mas não deu
muito
certo.
Ziraldo - Em que ano eles chegaram aqui?
Zilda - 1948.
Lena Frias - 1948? Não, dona Zilda, deve ser mil e oitocentos.
Zilda
- É, 1848. Meus irmãos me matam se eu falar datas erradas.
Passei pela Segunda Guerra Mundial
quando
era criança, e por isso não fui à escola alemã.
Meus irmãos todos aprenderam o alemão clássico,
menos
os três últimos. Eu aprendi apenas o alemão falado,
tradicional. Uma vez, quando fui à Alemanha,
eu estava
em uma reunião entre amigos e precisava ir ao banheiro. Então
eu disse: "Gostaria de ir ao
Paris".
Ah, deram tanta risada. "Você quer dizer 'toilette'?" Isso porque
os alemães, que estavam em guerra
com
os franceses, deram o nome de toilette a Paris.
Lena
- Seus pais sempre estimularam os filhos a estudar, não é?
A gente vê que toda a sua família tem
uma
formação boa.
Zilda
- Eu me lembro que uma vez chorei porque papai vendeu um morro. Nós
tínhamos um bananal e o
seu
Pedro, que morava lá perto, trazia uma carroça de bananas
todo sábado. Nós tínhamos um porão onde
guardávamos
bananas de tudo quanto é qualidade. Ainda hoje, quando vejo banana,
eu penso: "Ai, que
saudade
daquele tempo!"
Ziraldo - Olha! Alemão plantando banana!!!
Zilda
- Banana assada na chapa é que era o mais gostoso de tudo. Fazíamos
de tudo: torta de banana,
doce
de banana... Mas papai sempre deu muito valor aos estudos e, apesar de
precisar, vendeu o morro
para
pagar colégio. Ele investiu muito. Ele não tinha nem o terceiro
ano primário, mas tinha muita cultura
geral...
Luís
Pimentel - Ano que vem a Pastoral da Criança faz vinte anos. A senhora
está plenamente satisfeita
com
os resultados obtidos até aqui?
Zilda
- Eu sempre agradeço a Deus, com toda a honestidade, pelo que a
Pastoral fez e faz pelo Brasil. Eu
acho
que é realmente uma grande bênção para o Brasil
inteiro. Acho que a Pastoral da Criança tem uma
vivência
ecumênica muito interessante. Nós temos muitas lideranças
ecumênicas, de outras culturas. Em
São
Gabriel de Cachoeira, no Amazonas, nossa coordenadora da Diocese é
uma índia. Temos uma
Diocese
onde a diocesana é da Assembléia de Deus. Eles são
eleitos e são plenamente aceitos, quer
dizer,
se são eleitos é porque são bons.
Lena - A senhora acha que a Igreja pode achar um bomcaminho no trabalho social?
Zilda
- Eu acredito que os problemas sociais vêm de duas áreas:
uma é da família, que forma o tecido
social
humano. Todos entendem que realmente a pessoa tem muito do que foi na primeira
infância.
Nós
temos que cuidar desse tecido social, porque não adianta só
'ter'. Se 'ter' fosse suficiente, não
haveria
tanto desastre na classe média e na alta, onde não falta
comida. A outra área é a das políticas
públicas.
Eu creio que na área do tecido social a pastoral está
fazendo um bom trabalho. Na área
de políticas
públicas, estamos vendo que podemos fazer também, mudando
modelos de atenção.
Marcelo - Quando é que a senhora foi convidada pelo seu irmão para fazer esse trabalho?
Zilda
- Em 1982. Eu era diretora de saúde materno-infantil. Fui seis anos
pediatra clínica, depois montei
um consultório
nos fundos da minha casa, para eu não ter que sair e o filhos ficarem
sem a mãe. Eu
sempre
tive a convicção, como médica e por toda a minha cultura,
de que se a família não cuida da criança,
ela
se estraga. Tem que envolver a mãe e o pai. Eu já tinha a
completa convicção de que mais de 90% dos
males
podem ser prevenidos se a gente apoiar a família. Mas a família
também é sofrida, e dificilmente sai
por
si só do buraco. Em 82, estávamos no fim do governo de Ney
Braga, e o Richa entrou. Ele era boa
pessoa,
e tal, mas eu pertencia à equipe anterior. Eu não era política,
era diretora da Saúde Materno-infantil
e, modéstia
à parte, tinha feito um excelente trabalho. Consegui implantar a
saúde materno-infantil em todo
o Estado,
fizemos um programa de aleitamento materno e outras coisas na televisão
e a minha imagem
ficou
muito visível. Então quiseram apagar a minha imagem e me
tiraram, me deixaram em uma sala sem
fazer
nada. Eu estava triste, sem ter o que fazer e vendo tantas coisas irem
por água abaixo. De repente
dom
Paulo, que estava voltando de um debate sobre a miséria, em Genebra,
me telefonou. Ele tinha
conversado
com James Grant, secretário-executivo do Unicef, e me disse: "Olha,
Zilda, a Igreja pode salvar
milhões
de vidas ensinando às mães a reidratação oral".
Caco Xavier - Naquela época, isso era uma tremenda novidade.
Zilda
- Sim. Só que eu, como diretora do Saúde Materno-Infantil,
tinha sido escolhida pelo Ministério da
Saúde
para implantar o sistema no Paraná e, junto com a Universidade Federal
do Paraná, havíamos já
treinado
e estudado bastante. Eu conhecia bem, mas Dom Paulo não sabia dessa
história. Então eu disse
para
ele que, realmente, poderia ser assim, desde que se conseguisse que a família
fizesse, porque os
postos
de saúde fechavam aos sábados e domingos. Ele disse assim:
"O Unicef vai dar todo o apoio para
você,
eu já falei de você para eles". Nessa época, eu tinha
cinco filhos e já era viúva há cinco anos, estava
numa
fase emocional equilibrada, tocando o barco para a frente. Eu disse para
os meus filhos: "Eu sempre
durmo
cedo, mas hoje preciso ficar acordada. Vou tomar um café e fazer
o plano que vai salvar milhões de
crianças
no mundo". Eu falei mais ou menos o que era ensinar as mães a cuidar
dos filhos. Eles foram
dormir,
eu fiz o café e fiquei trabalhando.
Ziraldo - E eles apoiaram?
Zilda
- Eles me apoiaram muito. De noite eu me sentei e pensei: "Qual é
a estratégia para chegar ao
coração
das mães?" Eu pensei na multiplicação dos pães
e peixes. Como é que se multiplicou o pão e o
peixe?
Dois peixes deram para cinco mil pessoas, segundo o evangelho de São
João. Eles se organizaram
em pequenos
grupos (como a comunidade de base de anos atrás), e trouxeram o
que tinha entre eles.
Eram
dois peixes e cinco pães. Como alimentar aquela gente toda? Foi
dada a eles uma bênção, e depois
distribuíram.
Não foi Jesus que distribuiu, foram os discípulos. Ele fez
a avaliação: "Vede se todos estão
satisfeitos".
Eu sempre achei que, na saúde pública, o sistema de informação
deveria ser mais claro,
transparente,
mais utilizável. Usava-se o sistema de informação
para ver se as mães realmente estavam
atendendo
aos filhos como deveria ser.
Zélio - Naquela época não existia o espírito do voluntariado, como há hoje.
Zilda
- Eu acho que o voluntariado está dentro da gente, o que falta é
ser despertado. Qualquer pessoa tem
vontade
de ser voluntária, porque o voluntário dá, mas ganha
muito mais quando trabalha com o espírito.
Marcelo
- Nessa noite do café, quando planejou tudo isso, a senhora imaginava
que ia atingir esse
público?
Zilda
- Eu estava plenamente convencida de estar no melhor caminho do mundo,
porque faltava realmente
cuidar
dos males na sua raiz. Se a raiz é a ignorância, a miséria,
a desigualdade, a solução está também
aí.
Eu pensei: "Se queremos reduzir a mortalidade infantil, não é
só por diarréia. Não adianta só fazer o
sorinho
se a mãe continuar dando mamadeira suja, a água continuar
sem ser fervida, a comida estragada, e
enquanto
houver desnutrição e falta de vacina, entre outras coisas.
Eu procurei juntar cinco ações básicas
que
naquele tempo se considerava pontos fundamentais. Primeiro: Saúde
da gestante. Uma das coisas que
eu aprendi
com os franceses foi que se a gente cuidar bem da alimentação
da gestante, da saúde, cuidar
para
que ela não fume e seja apoiada, a gente evita 90% dos problemas.
Isso não era difícil de fazer.
Segundo
ponto: Aleitamento materno. Em toda a minha vida eu o propaguei muito,
porque as crianças
ficam
muito mais saudáveis e tranqüilas. Terceiro: Pesar as crianças.
Pela própria cultura do povo pobre,
eles
têm que enxergar resultados, a gente não pode ser teórico.
O soro caseiro era uma das coisas, é uma
coisa
que vai do conhecimento deles para a prática. E a balança
é um símbolo. O que mais? Vacinação.
Na minha
experiência, as mães só levavam as crianças
para vacinar no posto quando tinha cesta básica.
Elas
não tinham educação para pensar: "Vou vacinar para
o meu filho ficar protegido".
Zélio - Onde entra a multimistura?
Zilda
- Nós então formamos uma rede, em grupos organizados, como
no evangelho. Cada minicomunidade,
nós
dividíamos por micro-regiões. Havia uma área onde
mais de 72% das pessoas eram bóias-frias que
trabalhavam
no canavial.
Ziraldo - Como nasceu o nome Pastoral da Criança?
Zilda
- Primeiro era um programa de redução da mortalidade infantil,
mas aí eu fui em um Conselho da
CEP,
Comissão Episcopal da Pastoral e daí nós decidimos
que tinha que ter um nome. Tinha que ter
'criança'
no nome, e dom Paulo falou em 'pastoral'. Pastoral quer dizer o bom pastor
que vai atrás da ovelha
desgarrada.
Nosso objetivo é atender aos que estão em risco. Aí
ficou Pastoral da Criança.
Marcelo - E a multimistura?
Zilda
- A gente pesava as crianças e eu não queria cesta básica,
porque eu acho humilhante. A cesta
básica
dava a ilusão à família de estar ganhando a comida
que precisava. Então comiam tudo em uma
semana
e ficavam três sem comer, esperando a outra cesta básica.
Além disso, eu, como administradora
sanitária,
via muita corrupção.
Pimentel
- Por falar em corrupção, como é que a senhora consegue
fazer o trabalho de checar possíveis
desvios?
Nós sabemos que as prefeituras no interior do país têm
uma cultura muito grande de desvio de
verba,
desde a merenda escolar. Como a sua equipe consegue inspecionar direitinho
essa verba da
Pastoral
que vai para esses municípios?
Zilda
- A verba da pastoral não vai para os municípios, Deus me
livre! Nós, para gastarmos muito pouco em
burocracia,
sempre centralizamos a burocracia e descentralizamos a missão. Mais
de 70% das verbas vai
em dinheiro
para as bases e as bases decidem no que aplicar. Mas elas prestam contas
para nós e nós
para
as fontes, para evitar que elas tenham que correr atrás de dinheiro.
A própria diocese, que é uma
micro-região,
com cerca de 20, 30 municípios (algumas menos, outras mais), vai
localizando municípios
pobres
ou, nos municípios, as áreas mais carentes. A gente então
trabalha naquelas áreas, apresenta a
Pastoral,
que hoje já é bastante conhecida. Aí são identificados
líderes dentro da própria comunidade. Eles
são
fermento na massa, promovem lideranças pobres e o pobre trabalha
com o pobre. As equipes que
treinam
essas pessoas muitas vezes são profissionais, de classe média
ou da classe pobre, que já têm
prática,
são pessoas com uma maior formação.
Pimentel - Políticos não põem a mão em recursos?
Zilda
- A gente não diz que não põem ou deixam de por, mas
o que não pode é fazer propaganda através
da Pastoral
da Criança. Tem agentes nossos que são do PT e de outros
partidos, só que não podem ter uma
bandeira
política. Somos suprapartidários.
Fábio - 90% dos voluntários da pastoral é composta por pobres e negros, não é?
Zilda
- A maioria é pobre. Desses que trabalham na Pastoral da Criança,
a metade é negro e são a
maioria entre
as lideranças.
Zezé Sack - Ela falou da cesta básica, falou da corrupção, mas ainda não falou da mistura...
Ziraldo - Como é a estrutura burocrática da Pastoral? Onde é a base?
Zilda
- A base é em Curitiba. Funcionou no fundo da minha casa por 16
anos, onde era o consultório de
pediatria.
Eu comecei a trabalhar em casa, meus filhos foram casando e aí começamos
a ocupar os
quartos.
Quando Jaime Lerner entrou para a Prefeitura, a esposa dele me fez uma
visita e eu disse que a
minha
casa estava muito pequena. Em um quarto tinha três escrivaninhas,
com um telefonando, outro
planejando.
E eu não tinha condições de guardar material educativo,
essas coisas. Aí ela arranjou o Lar
das Meninas
Hermínia Lupion, doado por um fazendeiro. Hoje nós estamos
muito bem instalados, é um
privilégio.
Ziraldo - Como é a organização? Tem funcionários, salário, férias?
Zilda
- No começo era só eu e uma secretária cedida pela
Secretaria de Saúde. Depois a Unicef pagou
uma
secretária para me ajudar. Depois, quando nós fizemos convênio
com o Inamps, em 87, passei a
precisar
de um contador. Então nós fundamos a Anapac (Associação
Nacional de Amigos da Pastoral da
Criança),
que são voluntários que colaboram com a Pastoral. Hoje, entre
office-boy, digitadores e
empacotadores,
nós temos 40 funcionários.
Lena - A pastoral é sustentada por várias fontes...
Zilda
- Deixamos bem claro de onde vêm os recursos e para onde vão,
mas entre 70% e 80 % vêm do
Ministério
da Saúde.
Ziraldo - Só agora ou sempre veio?
Zilda
- Nos primeiros três anos o Unicef pagava as despesas. Hésio
Cordeiro era o presidente no Inamps,
e eu fui falar
com ele e disse que estávamos expandindo, que o dinheiro do Unicef
não estava dando para a
expansão,
que tínhamos que treinar as pessoas e precisávamos viajar.
Nós tínhamos reduzido a mortalidade,
e ele ficou
entusiasmado e mandou duas médicas para Ipiranga e Bragança
Paulista, em São Paulo, para
verem se a
coisa era realmente do jeito que eu estava falando para ele. Elas ficaram
muito entusiasmadas.
Foram visitar
mães, assistiram ao 'dia do peso', viram treinamento de lideranças
e deram um parecer positivo.
Aí
o Hésio telefonou para Curitiba, dizendo: "Olha, pode vir, nós
queremos fazer o convênio".
Isso era uma
novidade para a CNBB e também para ao Inamps, que nunca tinham feito
esse tipo de convênio.
Marcelo
- Como está parecendo que a gente não vai falar mesmo da
multimistura, eu queria fazer uma
pergunta
política, lá de trás, quando a senhora é chamada
por dom Paulo, faz um plano e ele acaba sendo
levado
para a reunião dos bispos...
Zilda
- Eu fiz esse plano em casa, baseado no evangelho de São João:
pequenas comunidades, lideranças
treinadas,
imbuídas de um espírito fraterno de solidariedade, de forma
suprapartidária e supra-religiosa.
Marcelo
- A CNBB aceitou desde o início? O conjunto dos bispos aceitou logo
ou, por ter vindo da família
Arns,
teve alguma resistência?
Zilda
-Eu levei para o Unicef primeiro, porque tinha que ter uma fonte financiadora.
De lá nós fomos à
CNBB,
na Assembléia dos Bispos. Nós apresentamos durante a Assembléia
e eles acharam melhor
começar
com uma paróquia, porque era uma novidade. Eles escolheram começar
por Florestópolis, no
Paraná,
e depois ir multiplicando. Houve resistências internas e externas.
Os mais progressistas achavam
que
ensinar soro caseiro não bastava, que o governo é que tinha
que fazer o saneamento. Só que até ele
fazer
o saneamento, morrem as crianças. E os mais tradicionais diziam:
"Vão pesar crianças? Deveriam
evangelizar".
E outros diziam assim: "Esse é um trabalho que o governo é
que deveria fazer. Agora vão
fazer
convênio com o governo corrupto?" Mas o governo não é
administrador do nosso dinheiro, não foi
eleito
pelo povo? Não é melhor que ele ajude a Pastoral a aplicar
bem? O governo é nosso! Eu não queria
procurar
verba no exterior, porque acreditava que o Brasil tinha que dar conta das
suas crianças. Eu não
procuro
verba no exterior, além do mais porque essa verba vem por três
anos, depois pode ir para a África e
a gente
fica num mato sem cachorro.
Marcelo - A
senhora falou que dentro da Igreja encontrou resistência pelos mais
diversos motivos.
E entre os
políticos, houve resistência? Entre prefeitos, no interior,
por ignorância ou por medo...
Zilda
- No começo, vou confessar, eu escondia a Pastoral da Criança,
eu queria protegê-la. Era uma
planta frágil
tinha que apanhar sol e ser protegida da chuva de pedras. Mas ela
foi crescendo e alguns prefeitos,
mais inteligentes,
deram valor, enquanto outros não. Quando alguém me perguntava
"como é que eu posso ajudar?",
eu dizia:
"Valorize a Pastoral da Criança, faça uma visita, incentive".
Nós não damos muito valor à estrutura física,
só
à ação, à participação.
Lena - A dimensão
da miséria no país é muito grande, você viaja
por aí e vê.
Quantas Zildas
Arns seriam necessárias para minorar essa questão?
Zilda
- Em vez de Zildas Arns, eu diria assim: "Quantas lideranças comunitárias
precisam ser motivadas para
mudar o país?"
O importante é a gente valorizar o potencial humano das comunidades
pobres. Tenho
lideranças
que dizem para mim: "Eu não era gente, agora me sinto uma doutora".
Quer dizer, está
transformando
a sua comunidade.
Lena - A senhora diria que essa é uma ação revolucionária da Igreja?
Zilda
- É revolucionária. A gente não precisa de Zildas,
mas de lideranças comunitárias capacitadas.
Essas são
as pessoas mais importantes para transformar o Brasil.
Marcelo - Ou
seja, esse trabalho da Pastoral não é uma questão
só de evitar a mortalidade infantil,
é uma
questão de conscientização, de cidadania. A senhora
acha que esse povo da Pastoral, em outubro,
vai depositar
um voto mais consciente na urna? Sei que a senhora não gosta de
misturar política com a Pastoral,
mas na medida
em que há uma conscientização, não está
havendo uma politização, no bom sentido?
Zilda
- Eu não posso dizer que eles votam nos melhores, porque a população
carente não acredita muito
assim em promessas
não palpáveis. Se eles ganham o favor de um político,
eles ainda se deixam vender.
A gente tem
que politizar. A missão da Pastoral também é politizar,
mas não partidarizar.
Nós
temos até um livrinho só para o tempo de eleições
e que a gente distribuiu no Brasil inteiro.
O perfil do
candidato que eu gostaria é o de uma pessoa preparada, que saiba
administrar com
as tempestades
globalizadas e que, além da estabilidade da moeda, faça com
que haja mais
desenvolvimento
para gerar mais empregos e cuide da saúde e da educação.
Lena - O trabalho de alfabetização faz parte da Pastoral da Criança?
Zilda
- Sim, temos mais de 40 mil alfabetizandos este ano. É um braço
para reduzir a mortalidade infantil,
porque a mãe
alfabetizada tem mais capacidade de cuidar. Iniciamos também um
programa da Terceira Idade,
porque nós
temos agentes da terceira idade e agentes que têm pais e mães
nesta faixa, com pressão alta,
urina solta,
com insônia, muitos problemas. Eles pediam: "Como é que eu
ajudo a minha mãe?"
Daí
a Sociedade de Geriatria se apaixonou pela Pastoral da Criança e
nos ajudou. Não queremos
desenvolver
muitas coisas, porque nós não gostamos de multiplicar as
ações quando não temos pernas
para fazer.
Jaime Lerner nos deu o dinheiro para que pudéssemos fazer a pesquisa
para desenvolver
a metodologia,
que é igual a da Pastoral da Criança: formar líderes
que visitam famílias.
Nós
só ensinamos como prevenir quedas dentro de casa, vacinar contra
pneumonia e gripe,
tomar dois
litros de água por dia. Nós estamos fazendo isso aí,
mas querendo entregar para uma
outra Pastoral
da Terceira Idade se for criada.
Pimentel - E a indicação para o prêmio Nobel da Paz?
Zilda
- A Pastoral já ganhou o seu prêmio salvando vidas. Se ganhasse
o Nobel, seria bom para o Brasil,
seria bom
para as lideranças, e seria bom para o mundo saber que é
possível prevenir a violência.
Na Pastoral,
estamos construindo redes comunitárias de solidariedade humana,
multiplicação do saber, pontes.
E as nossas
comunidades são muito menos violentas comparadas a outras que não
têm esse trabalho.
Nós
temos umas técnicas que inventamos para a gente discutir de forma
participativa problemas comunitários
e soluções
comunitárias. Mas eu estava falando de uma coisa e não terminei...
o que era mesmo?
Marcelo - O prêmio Nobel.
Zilda - Ah, sim. Hoje eu estava no aeroporto de Curitiba e ouvi que este ano foram indicados...
Lena - ... o George Bush e o Tony Blair. Pro Prêmio Nobel da Paz!
Zilda
- Quando eu vi aquele desastre de 11 de setembro, eu estava em Brasília,
e pensei:
"É
difícil ganhar prêmio Nobel com atitudes que promovam a paz.
É mais fácil, depois que o
desastre acontece,
premiarem os que conseguem restringir a violência, apesar de ter
custado tantas vidas".
A cultura
da paz precisa ser conquistada.
Caco - E os
planos para o futuro, a médio prazo, longo prazo? Há planos
que fogem um pouco dessa
necessidade
de 'apagar os incêndios', em direção à construção
da cidadania?
Zilda
- Nós estamos querendo difundir mais rapidamente as informações,
e por isso fizemos um convênio
com o BNDES
para informatizar 200 micro-regiões do país, tê-las
ligadas em rede, todas as dioceses.
[Chega à
redação o jornalista Fritz Utzeri, que recentemente escreveu,
no Jornal do Brasil,
o artigo
'Zilda, a mulher de verdade', sobre dona Zilda Arns e o trabalho da Pastoral
da Criança.]
Marcelo - Dizem
que os alemães e descendentes de alemães têm sangue
muito frio, dizem que são
até
um pouco insensíveis. Conta pra gente alguma história que
lhe emocionou, alguma experiência
dessas suas
andanças pelo Brasil que lhe tenha marcado muito.
Zilda
- Eu sou bastante emotiva, mas eu me controlo porque fui esportista e a
gente aprende a se
controlar
um pouco. Eu vou contar uma história bonita. Quando eu encontrava
muita resistência,
veio uma pessoa
(que não vou contar quem foi, pois hoje é fã da Pastoral),
sem me cumprimentar, disse:
"Ali está
a LBA da Igreja". Ele relacionava a Pastoral àquela burocracia,
àquela coisa ruim.
Eu fiquei
muito magoada. Eu rezava: "Meu Deus, sei que estou no caminho certo, mas
me dá um sinal
para ver se
eu devo continuar ou se devo largar mão e cuidar da minha família".
Aí eu viajei para o Maranhão,
onde eu tinha
estado três meses antes na favela do Coroadinho, da paróquia
Nossa Senhora da Glória.
Eu fui lá,
e treinamos as lideranças. Depois de seis meses, eu tinha o hábito
de voltar para ver como é
que estava
indo. Quando eu cheguei no aeroporto, frei Eurico estava lá e eu
pedi para ele me contar como
ia a Pastoral.
Ele falou: "Oooh, amanhã a senhora vai ver". Eu pensei: "Acho que
não deu em nada, o sinal está aí".
Marcelo - Começou a arrumar as malas para voltar para casa?
Zilda
- Antes de dormir, fiquei matutando: "Que engraçado, o pessoal parecia
tão entusiasmado".
Quando eu
cheguei na frente da capela, não tinha ninguém me esperando,
ninguém. Aí eu pensei:
"O sinal está
dado. Aquelas mulheres tão entusiasmadas nem vieram me receber".
Mas quando abriram a porta,
a capela estava
cheia de gente e as crianças jogando pétalas de rosa (não
sei onde que arrumaram tantas pétalas)
e eu me emocionei
tanto, tanto, que eu cheguei lá na frente e pensei: "Meu Deus, eu
pedi um sinal, mas não precisava
dar um sinal
tão forte assim não!"
Marcelo - E qual foi um caso que lhe doeu o coração?
Zilda - Em todas as partes a gente viu o desprezo pelo trabalho comunitário, isso sempre dói.
Pimentel - Onde está a maior pobreza no Brasil, no Maranhão ou no Piauí?
Zilda
- Em Alagoas. Está melhorando agora. No Maranhão e no Piauí
também tem muita miséria,
mas as comunidades
da Pastoral estão reagindo. Uma rede de solidariedade humana multiplicando
os pães
e peixes sob a forma da solidariedade e da informação, porque
a informação tem o maior
poder de inclusão
social.
Marcelo - A senhora esbarrou com a questão do tráfico e do consumo de drogas?
Zilda
- Aqui no Rio, estive há uns quatro anos atrás em um morro
dominado pelo tráfico.
Eu fui com
o pessoal da Cúria e eles tiveram que pedir licença para
entrar, mas não nos deixaram.
Ziraldo - Eles chegaram a impedir que vocês fizessem o trabalho?
Zilda
- Tivemos que entrar por um outro lugar. A pastoral não se mete
com nada. O nosso objetivo
é combater
a mortalidade infantil, a desnutrição e a violência,
preservando o ambiente em que a criança está.
Nós
trabalhamos em qualquer ambiente e a gente não procura se meter
nisso, porque a gente
quer salvar
as crianças.
Ziraldo - Em algumas comunidades o índice de mortalidade é zero.
Zilda
- Mais dois mil municípios com índice zero. Não em
todos os municípios, mas nas comunidades
da Pastoral
da Criança. Tem uma série histórica que você
pode acompanhar pelo sistema de informações.
Florestópolis,
onde começamos, tinha um índice de 127 por mil, e hoje não
tem nenhuma morte.
Marcelo - O fato de haver ligação com a igreja lhe cria dificuldade com outras religiões, como os evangélicos?
Zilda
- Já quando trabalhávamos no primeiro município, Florestópolis,
eu disse: "Eu quero todas as religiões
na Pastoral
da Criança".
Lena - E entre as religiões afro?
Zilda
- Na Bahia, temos muitas líderes negras, são pessoas fantásticas.
Eu me sinto tão bem no meio dos negros.
Quando recebi
o título de Cidadã Honorária da Bahia, os negros era
mais de 90% do público que estava na
Assembléia
prestigiando. A Pastoral não quer saber o que você pensa,
se você é homossexual, prostituta ou
outra coisa,
nós queremos salvar as crianças onde elas estão em
risco. Essa foi a filosofia desde o início.
Fritz - Dentro
do quadro geral desse Brasil de 50 milhões de miseráveis,
quantos por cento do problema
vocês
pegam?
Zilda
- Das crianças menores de seis anos e suas famílias? Eu diria
que nós estamos em torno de 9% apenas.
Se nós
contarmos os pobres, nós podemos pôr assim 18%. Nesse livro
que eu dei para vocês tem um
gráfico
com a cobertura por estado e quanto custa cada criança.
Lena - E quanto custa? É caro?
Zilda - Menos de um real.
Fritz - Me
explica, então, por que os governos, em todo o momento, dizem que
para botar uma
criança
na Febem, gasta-se mil e não sei quantos.
Zilda
- Aí é que está a irracionalidade dos Estados Unidos
e de tantos governos.
Por que não
trabalham na prevenção? Quando está estragado é
que vão atrás?
Por que existe
tanta violência no Brasil e no mundo? O Bush pediu quantos milhões
para o ano que vem?
Por que não
emprega isso para saúde e educação? Por que a nossa
dívida externa não se transforma
em atividade
social?
Lena - É por causa das indústrias...
Zilda
- Interesses econômicos. Só que o mundo está indo para
uma situação que não é boa nem para os ricos.
Os próprios
Estados Unidos já foram vítimas. Tem que pensar em outro
modelo que valorize também a prevenção.
Só
que você tem que ter a consciência não só do
governo, mas também da sociedade, de que é preciso investir.
Esse um real
é pouco, mas é necessário. Se você não
tiver nenhum dinheiro, como vai capacitar, mobilizar?
Nós
temos programas de rádio, temos jornal.
Ziraldo - A senhora tem uma estação de rádio?
Zilda
- Nós trabalhamos com transmissoras voluntárias. São
15 minutos semanais.
Nós
produzimos e temos uma rede voluntária de comunicadores que nem
sempre são jornalistas,
mas que fazem
programas de rádio. São 600 jornalistas na rede e 1200 voluntários.
Nós
produzimos matérias para o pessoal aprender. A gente tem um jornal,
o "Dicas"
que é um jornalzinho só para multiplicadores, quase sete
mil equipes.
Marcelo - A
Pastoral recebe doações do cidadão? Se o Joaquim ali
da esquina resolve
doar um real
por mês, ele tem como fazer isso?
Zilda
- Tem, nós recebemos via conta de luz. Começou no Paraná,
com a Copel,
depois foi
para Alagoas, Bahia, Santa Catarina e Mato Grosso. No Paraná, vocês
podem
acessar esses
dados: 90% das pessoas doam um real ou menos. Quer dizer, são pobres
que doam.
Fritz - É o óbulo da viúva.
Marcelo - Mas vocês fazem alguma campanha ativa?
Zilda
- Nós tentamos fazer, em rádio, televisão, papel,
mas não deu em nada...
Então,
começamos a fazer nas paróquias. De novo começou de
baixo para cima, treinando líderes
para preencherem
o negócio.
Marcelo - A Pastoral da Criança já chegou nos índios?
Zilda
- Sim, em muitos. Sete mil e quinhentas crianças indígenas.
18% das crianças indígenas
estão
na Pastoral da Criança.
Fábio
- Uma pergunta de católico: essa prática religiosa da Pastoral,
que procura promover o ecumenismo,
a educação
popular, esse é um novo modelo? A igreja do futuro é assim?
Onde as mulheres são 90%,
os leigos
são quase a totalidade. Esta é a igreja do futuro?
Zilda - Eu diria que é a presença da igreja no meio do povo, e não deixa de ser um sinal dos tempos.
Marcelo - Mas isso não foi um pouco freado pela gestão do papa atual?
Zilda
- Não costumo jogar a culpa nos outros. Eu vejo o jeito que tem
que ser e vou lá e faço.
E no fim,
pelos resultados, eu me imponho. Essa Pastoral não recebeu espaço,
ela conquistou espaço.
Ziraldo - Uma
das ações importantes, além do soro caseiro e da multimistura
(ainda não falamos dela!),
é pesar
a criança.
Zilda
- Nós temos três caminhos para a difusão da solidariedade:
uma é a visita mensal. Há mais de
um milhão
de famílias visitadas em todo o Brasil. As líderes visitam
as famílias e tentam reproduzir para
elas o que
aprenderam. Em segundo lugar, nós pesamos as crianças em
mais de 30 mil comunidades em
todo o Brasil.
O 'dia do peso' é o dia da festa da vida, porque se canta, as crianças
vêm até a balança.
Ziraldo - Como surgiu o 'dia do peso'?
Zilda
- Eu inventei. Em São Paulo, o sistema quis reagir: "Nós
temos um posto de saúde na favela e
a senhora
inventa pesar em casa". Então nós dissemos o seguinte: "Vocês
pesam e nós fazemos as outras ações,
menos pesar".
Mas quando eu fui perguntar para as líderes quantas crianças
havia desnutridas, elas respondiam:
"Ah doutora,
a senhora tem que ver lá no posto, porque é lá que
pesam". Aí eu percebi que a gente tem
que pôr
a mão na massa. São "as minhas crianças".
Ziraldo - Dona
Zilda, o que é que nós do Pasquim podemos fazer pela Pastoral
da Criança? Essa lição
de cidadania
que a Pastoral dá, o que nós podemos fazer?
Zilda
- Como diz o evangelho, a luz não é para ser colocada em
baixo da mesa, é para iluminar. Então,
eu creio que
vocês têm muita missão de iluminar, de incentivar para
que as comunidades se animem.
E, como eu
disse, a cultura da paz ainda está para ser conquistada.
FINALMENTE, A HISTÓRIA DA MULTIMISTURA
Zilda
- Uma criança, para deixar ser desnutrida e subnutrida, não
precisa só de comida.
Eu vi creches
com bastante comida e crianças subnutridas, com carência de
atenção.
Elas ficam
doentes toda hora, têm diarréia, não são vacinadas,
pegam sarampo.
A saúde
precisa de mais do que só comida. A idéia da multimistura
surgiu depois de três anos
trabalhando
com desnutridos. Eles iam melhorando, mas com muita dificuldade.
Um dia, eu
fui convidada pela Associação de Enfermeiras para dar uma
palestra sobre aleitamento
materno e
seus benefícios. Depois da minha palestra, assisti a uma palestra
da Clara Takaki Brandão,
uma japonesa
que, numa creche de Santarém, no Pará, recuperou várias
crianças com farelo de trigo,
farelo de
arroz, casca de ovo e outras coisas mais. Eu achei interessante (casca
de ovo e farelo tem em todo lugar)
e, quando
ela terminou a palestra, eu a procurei: "Você não gostaria
de nos ensinar?" Ela era do Inamps.
Eu liguei
para o Hésio Cordeiro, para ela poder trabalhar com a gente, e ela
ficou com três anos.
Ziraldo - De onde ela tirou isso?
Zilda
- Ela é médica nutróloga, ela mesma desenvolveu a
mistura. Só que ela era bastante fechada nas receitas.
Nós
ouvimos muitas críticas, procuramos em universidades e depois já
estávamos colocando soja
(onde tivesse
soja), amendoim (onde tivesse amendoim), gergelim, pupunha (lá no
Norte temos muita pupunha,
que é
riquíssima)... Fomos aprendendo, fomos melhorando e aquilo virou
multimistura. Por isso não há uma
patente da
multimistura, porque não há duas comunidades iguais. A casca
de ovo é triturada.
A gente lava,
ferve, tritura e depois ela é peneirada, até virar quase
um pó de arroz branco. É muito bom.
Na minha experiência,
quando as galinhas botavam ovos lá em Forquilhinha, se eu pisava
em cima e quebrava o ovo,
a minha mãe
dizia assim: "Está com falta de cálcio". Então a gente
guardava as cascas de ovo, ela torrava e
a gente amassava,
misturava com o milho e dava para as galinhas. Três dias depois,
os ovos não quebravam mais.
Fábio - Como a senhora regionaliza a mistura?
Zilda
- Eu não regionalizo, o povo é que regionaliza, inventa e
faz. E nós incentivamos a produção comunitária,
porque não
é só a mltimistura, são os laços de solidariedade,
fortalecimento, amizade.
A gente quer
que a produção seja pequena, para não perder a comunidade,
já que a multimistura estraga fácil.
Marcelo - Isso já está em uma cartilha? Alguém já se preocupou em fazer uma cartilha com essas receitas?
Zilda
- Nós temos, mas são tantas. A gente não gosta muito
de passar receitas para não ficar muito quadrado.
Mas temos
receitas sim, temos apostilas regionais, o pessoal vai trocando entre si.
Nós
trabalhamos muito também com ervas medicinais. 90% das comunidades
trabalham com elas,
e também
passam receitas em seus livrinhos.
Ziraldo - A senhora já experimentou muito a multimistura?
Zilda
- Demais. Só me fez mal uma fez. Eu estava no Alto Solimões,
40° de temperatura, andando de barco
e juntaram
gente de tudo o que é comunidade. Cada uma fez um prato para dar
para a dona Zilda.
Fizeram um
salão cheio de pratos e eu tinha que experimentar. Chega a uma certa
altura e você não
consegue mais
comer, mas o pessoal pedia: "Só um pouquinho, só um pouquinho".
Já viu, né?
Caco - A mistura das multimisturas
Lena - Então
não foi bem a multimistura, foi a mistura...