Jornal Folha de São Paulo
Caderno Folha Brasil
São Paulo, segunda-feira, 08 de abril de 2002

ENTREVISTA DA 2ª

Coordenadora defende seu anúncio para o governo, mas diz que não fará campanha para Serra

Zilda Arns rejeita uso político da pastoral
GABRIELA ATHIAS
RENATA LO PRETE
DA REPORTAGEM LOCAL 

Se a meta da Pastoral da Criança é reduzir mortalidade infantil e desnutrição, explica a médica Zilda Arns,então é preciso trabalhar com as pessoas que a comunidade oferece. "Não escolhemos as líderes de acordo com o comportamento", diz a coordenadora nacional da entidade. "Em área de prostituição, são as prostitutas que estão mais próximas da criança. Em área dominada pelo tráfico de drogas, às vezes eu encontro líderes que não são do tráfico. Às vezes não." Se a meta da Pastoral da Criança é reduzir mortalidade infantil e desnutrição, prossegue a médica com igual pragmatismo, então ela seria "covarde" se não reconhecesse que sob o atual governo "houve melhoria do modelo de atendimento social". Ao reconhecê-lo publicamente, em depoimento usado na mais recente campanha publicitária oficial, Zilda Arns se viu no centro de polêmica, situação inusitada para seu temperamento conciliador. Setores da Igreja Católica, à qual a pastoral é ligada, temem que ela se torne braço auxiliar da candidatura presidencial de José Serra -que lhe duplicou os recursos quando ministro da Saúde. O diretor-presidente da pastoral, d. Aloysio José Leal Penna, chegou a pedir ao Planalto que retirasse a peça do ar. Na quinta-feira passada, o anúncio com a médica e os demais da campanha foram suspensos por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, que os julgou favorecedores do pré-candidato oficial. Zilda Arns não acredita que o governo venha a usar suas declarações nos próximos meses de embate eleitoral. "Eles têm muito respeito por mim." Em 15 anos, ela transformou um projeto piloto de saúde infantil iniciado em Florestópolis, cidade de 14 mil habitantes no interior do Paraná, em uma rede que atende 1,6 milhão de crianças em 3.480 municípios do Brasil. A taxa de mortalidade dos atendidos pela pastoral é de 13 por 1.000 nascidos vivos, contra média nacional de 34,6 por 1.000. Com a coordenadora trabalham 155 mil voluntárias, que visitam famílias, pesam crianças, distribuem multimistura (farinha enriquecida com proteínas) e estimulam o aleitamento materno.
Exportado para 13 países, o modelo valeu à médica de 67 anos uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz de 2001 -reconhecimento que o país novamente tentará obter este ano. Dona de extraordinária semelhança física com o irmão cardeal, d. Paulo Evaristo, Zilda Arns fala bastante e com entusiasmo, mas mede cada palavra. Quase não mexeu as mãos durante a entrevista de duas horas concedida na tarde de quarta-feira passada. Leia a seguir os principais trechos. 

Folha - A maioria das agentes da Pastoral da Criança atua em favelas, onde a presença do narcotráfico é forte e em muitos casos dominante. Como se dá esse convívio? 
Zilda Arns - Muitas vezes vou visitar uma favela e a líder local me diz que só estamos autorizadas a ir até um determinado barraco. Somos contra o tráfico de drogas, mas nosso papel na favela é salvar as crianças. Não estamos lá para ir contra o tráfico. 

Folha - Como lidar com isso? 
Zilda Arns - Não fugimos dos nossos objetivos, que são a redução da mortalidade e da desnutrição e a proteção da criança contra a violência. Nosso trabalho é limitado, mas alcançamos as metas. Além disso, o narcotráfico é uma consequência da miséria. 

Folha - Como as líderes fazem para atender crianças em locais fechados pelo tráfico? 
Zilda Arns - Voltam no outro dia e tentam entrar. Estive numa favela do Rio e a líder desceu do carro para saber por onde poderíamos passar, mas foi informada de que naquele dia não seria possível. Procuramos outra passagem. Em cada esquina tinha um olheiro, muitos paraplégicos. Mas naquele lugar, onde as ruas pareciam catacumbas, as crianças estavam sendo pesadas e acompanhadas. Não esqueço de uma senhora já de idade, sentada no chão da casa, um mau cheiro forte vindo de um riacho cheio de esgoto. Eu perguntei: como vai? Ela disse: muito mal, meus filhos estão todos presos. Agora, as crianças estavam bonitas. É o que podemos fazer. 

Folha - Há comunidades em que as mulheres ligadas ao tráfico se tornam líderes da pastoral? 
Zilda Arns - Trabalhamos com líderes da favela e de áreas de prostituição. Há 13 anos, visitei uma área de prostituição muito pobre no interior de Caicó (RN). As crianças de lá ficavam cheias de ferida e morriam. Fiz uma reunião, perguntei se sabiam rezar o Pai Nosso, expliquei o trabalho da pastoral. Elas escolheram duas prostitutas para serem treinadas para o trabalho de líderes. Em novembro passado, voltei a Caicó. As crianças desnutridas daquele tempo já são adolescentes. Montaram uma orquestra de flauta. Lembro de uma menina comprida, antes pele e osso, agora com microfone na mão, cantando. O milagre da solidariedade deu uma resposta. 

Folha - Então há mulheres ligadas ao tráfico na pastoral? 
Zilda Arns - Sim. Não escolhemos as líderes de acordo com o comportamento. É gente da comunidade. Na hora em que se convencem de que a pastoral é saudável para as crianças, tornam-se elementos de transformação social. 

Folha - A participação de pessoas ligadas ao tráfico não acaba por legitimar o poder do crime? 
Zilda Arns - Na pastoral não se conversa sobre tráfico. 

Folha - Mas também não se bate de frente. 
Zilda Arns - Não salvaríamos as crianças se batêssemos de frente. Quem iria cuidar delas?
Em área de prostituição, são as prostitutas que estão mais próximas da criança. Em área dominada
pelo tráfico de drogas, às vezes eu encontro líderes que não são do tráfico. Às vezes não. 

Folha - Como garantir que essas pessoas atuem de acordo com os princípios da pastoral? 
Zilda Arns - O curso de capacitação dura 40 horas. Há reciclagens e reuniões mensais.
Ainda tem de anotar as informações sobre as crianças no caderno do líder. Quem não é bom não aguenta. 

Folha - Entre 98 e 99, a mortalidade infantil aumentou mais de 100% nas favelas atendidas
pela pastoral na cidade São Paulo. A deterioração do quadro nos grandes centros não coloca
em risco o histórico de sucesso de seu programa? 
Zilda Arns - São Paulo sofre com as consequências da migração e do desemprego.
Falta controle social das políticas públicas. Muitas vezes os mais miseráveis não têm acesso aos programas sociais porque as crianças não têm registro de nascimento. Há uma indiferença dos líderes comunitários e do poder público, que não vai à favela identificar os necessitados. Tem de haver controle para que oportunidades cheguem aos que precisam porque é mais cômodo preenchê-las no gabinete. 

Folha - Como a sra. avalia a política social do Brasil sob o prisma das ações integradas? 
Zilda Arns - Houve um avanço do assistencialismo para a promoção humana. É preciso também ressaltar os efeitos da descentralização de programas, dinheiro, cestas básicas. Houve melhoria do modelo de ação social e também uma visão de inter-setorialidade. Mas a migração para as grandes cidades continua grande porque não se deu atenção suficiente à fixação do homem no campo. 

Folha - A pastoral é um movimento católico que atua em favelas dominadas, em muitos casos, por igrejas evangélicas. Como é a convivência com a comunidade? 
Zilda Arns - No Brasil inteiro temos pessoas de outras religiões trabalhando conosco.
Nunca ouvi queixas ou senti resistência. Trabalhamos pelos mesmos objetivos, então todos são bem-vindos. 

Folha - Em alguma comunidade houve resistência de uma maioria não-católica à ação da pastoral? 
Zilda Arns - Não. Os pobres, quando vêem que somos uma entidade que ajuda, sentem que o trabalho é supra-religioso. Não catequizamos, melhoramos a situação deles. Só que, como trabalhamos em rede, todos os voluntários usam os mesmos livros, independentemente da religião. O guia do líder trata de saúde, educação, nutrição, cidadania e fé também. Falamos sobre a importância do batismo na igreja à qual pertencem. Não dizemos que batismo é na Igreja Católica. Visitei seis comunidades muçulmanas em Guiné Bissau que trabalham com a pastoral. Fiquei comovida ao ver eles rezarem e cantarem na religião deles, pesarem as crianças, fazerem o soro caseiro. Se eliminássemos a ignorância e o preconceito, o mundo seria mais fraterno. 

Folha - Sua participação na campanha comemorativa dos oito anos do governo FHC não é um
endosso à campanha do senador José Serra à Presidência da República? 
Zilda Arns - Quem é livre pensa diferente, e eu me sinto absolutamente livre. Elogio o que é bom e
denuncio o que é ruim. O governo é amigo ou inimigo? Nem uma coisa nem outra.
É o administrador dos nossos recursos. Por índole e experiência sei que temos de martelar no que é bom. Do contrário, chega outro governo e tira o programa. Já vi isso muitas vezes. No Conselho Nacional de Saúde [do qual ela é membro há 10 anos", se vejo que as propostas do governo não valem a pena, não apóio. 

Folha- A sra. daria exemplos? 
Zilda Arns - A política de cestas básicas que exclui as mulheres que amamentam e que tem como
parâmetro a desnutrição. Nem todos os desnutridas o são por falta de comida, e você não pode premiar quem cuida mal dos filhos. Na pastoral, há mães paupérrimas que têm crianças lindas e não recebem cesta porque elas não são desnutridas. São mães que amamentaram, deram multimistura, levaram para vacinar. E aquelas outras que vivem na mesma pobreza e têm filhos desnutridos, recebem. Há mães que mantêm os filhos desnutridos para garantir cesta básica. Fui voto vencido. Agora chegou a bolsa-alimentação. No conselho o projeto não foi aprovado porque um grupo foi contra o valor de R$ 15, considerado muito baixo. É mesmo, mas para quem é pobre, ajuda. A mãe sabe que pode ir à mercearia comprar fiado porque o dono sabe que ela vai pagar com os R$ 15. Melhor isso do que paternalismo. 

Folha - A sra. enfrenta resistência dentro da Igreja Católica por causa da proximidade com o governo? 
Zilda Arns - Quando começamos o convênio com o Ministério da Saúde, em 87, havia muitas pessoas dentro da igreja que diziam: esse governo é corrupto, como é que a pastoral vai fazer convênio? Eu dizia: é melhor que o governo aplique recursos na pastoral do que em corrupção. Se fosse um governo do PT ou de qualquer outro partido e fizesse coisas boas e me pedisse para declarar, eu declararia. Seria covarde se não o fizesse. 

Folha - Em comparação às demais pastorais da Igreja Católica, a da criança sempre foi a mais
suprapartidária. Sua participação na campanha não "tucana" a pastoral? 
Zilda Arns - Eu não olho o governo como partido. Ele é o administrador do dinheiro público.
Se faz bem as coisas nas quais acredito, reconheço. E eu não bato de frente, assim como não bato
com as prostitutas e com outros grupos. Minha razão é fazer com que as crianças sobrevivam em plenitude. 

Folha - A sra. chegaria ao ponto de declarar voto ou de participar ativamente da campanha de Serra?
Zilda Arns - Não faria de jeito nenhum. Ele foi bom ministro, promoveu a descentralização dos recursos, uma briga de dez anos. Luto pelo que acho certo. Pensei muito antes de fazer a campanha.

Folha - Por que a dúvida? 
Zilda Arns - Não tive dúvida de dar o testemunho. Mas pensei nas perguntas que os jornalistas fariam. 

Folha - A senhora não teme que suas declarações sejam usadas ao longo da campanha eleitoral? 
Zilda Arns - Com certeza não vão ser. Eles têm muito respeito por mim. 

Folha - Como a sra. vai proteger a pastoral de interesses partidários? 
Zilda Arns - Sendo fiel a nossos objetivos. E existem regras. É proibido usar camiseta de candidato ou distribuir material de campanha durante as visitas. Mais próximo da campanha reforçamos as orientações em um livrinho. 

Folha - E se sua imagem gravada para a campanha do governo aparecer no horário eleitoral? 
Zilda Arns - Corto a cabeça de quem fizer isso [risos". Seria acabar com a Pastoral da Criança.