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Quinhentos anos depois da Carta em que os colonizadores europeus descreveram,
pela primeira vez, as belezas e as riquezas do Brasil, é também
com uma Carta que fazemos chegar ao povo brasileiro as alegrias, preocupações
e esperanças das mais de 10 mil pessoas que participaram dos 150
eventos regionais e locais da 3ª Semana Social Brasileira.
Iniciativa da CNBB e parte de sua programação para
viver o Jubileu dos 2000 anos do nascimento de Jesus Cristo, a 3a Semana
Social é assumida e coordenada por pastorais, entidades ecumênicas,
organismos e movimentos populares.
Motivados pela fé cristã, que nos convoca a remover as
montanhas da ignorância e da indiferença; motivados pelo compromisso
com o povo, que vive uma situação intolerável de sofrimento
e de dor; e motivados por um novo milênio, que queremos muito diferente
deste que se encerra, nós, os 396 participantes do Momento Nacional
da 3a Semana Social, reunidos em Itaici (SP), de 4 a 8 de agosto de 1998,
denunciamos as dívidas sociais que atingem a população
brasileira e assumimos compromissos para superá-las.
Quais são as dívidas sociais?
São as dívidas que as elites dominantes impuseram ao nosso
povo, em 500 anos de exploração. Dívidas que se materializam
no desemprego, nos salários indignos, nos sem-terra, no abandono
dos pequenos agricultores e dos pescadores artesanais, na escravidão
que persiste, na fome torturante, no extermínio dos povos indígenas
e de outros grupos sociais.
Dívidas que se expressam, também, nos sem-teto, na discriminação
dos migrantes, no sucateamento dos serviços de saúde e educação,
na precariedade dos serviços urbanos, nas agressões ao meio-ambiente.
Dívidas que se revelam, ainda, na negação
do pleno direito à cidadania dos portadores de deficiência,
dos idosos, jovens, crianças, adolescentes, meninos e meninas de
rua, mulheres, povos indígenas, negros, ciganos e outras etnias,
maiorias e minorias de nosso povo.
Dívidas que se fortalecem na violência cotidiana, na injustiça,
na corrupção, na falta de democracia real, nas distorções
veiculadas por meios de comunicação de massa, na destruição
de valores individuais e coletivos.
Os credores das dívidas sociais são a maioria do
povo brasileiro. Não precisamos, aqui, indicar quantos são
os sem-terra, os sem-teto, os desempregados, os sem-cidadania... A existência
de uma única criança abandonada já nos causa indignação
e nos faz lutar contra o projeto político excludente que domina
a sociedade brasileira, campeã mundial de desigualdades sociais.
Raízes e resgate das dívidas sociais
As dívidas sociais possuem raízes profundas, que remontam
ao processo colonizador europeu, a séculos de escravidão,
de transferência de nossas riquezas para o exterior, de democratização
lenta e restrita, de justiça parcial e perpetuadora de desigualdades,
de subordinação do Estado aos interesses privados nacionais
e internacionais, de um desenvolvimento econômico que gera e reproduz
estruturalmente a desigualdade.
O modelo neoliberal, implementado no Brasil principalmente a partir
de 1990, reforça a desigualdade estrutural existente na sociedade
brasileira. Vivemos sob o domínio das chamadas leis do mercado,
do individualismo, da competitividade, do consumismo. A idolatria do mercado
sufoca os valores da igualdade, da solidariedade, da soberania nacional,
de uma democracia participativa.
O grande capital exige subordinação de nossa sociedade,
impondo privatização de estatais, abertura comercial sem
salvaguardas nem contrapartidas, desmantelamento dos serviços públicos.
Agravam-se o desemprego, a violência, a crise de valores. Mas
as soluções estão à vista e à mão.
Nossas mazelas não se devem à falta de recursos: suas causas
são políticas e estruturais.
É necessário construir um novo projeto de sociedade,
orientado por valores e por estratégias capazes de promover a distribuição
da riqueza, da renda, da terra, do poder e do saber, criando oportunidades
para que todos os brasileiros possam viver com justiça, dignidade
e alegria.
Esta nova sociedade já vem sendo construída, pelos movimentos
populares, pela sociedade civil, na luta contra o projeto dominante. O
novo é visível nas lutas por terra e água, na batalha
por direitos sociais e políticas públicas, na defesa do meio-ambiente,
nas iniciativas de produção alternativa, em todos que, de
diferentes formas, procuram viver a verdadeira democracia, a cooperação
e a solidariedade.
Nossos compromissos
Convocamos o povo brasileiro e as Igrejas a concretizar
os ideais do Jubileu bíblico, assumido por Jesus como sua missão
permanente na construção do Reino de Deus. O Jubileu consiste
no resgate das dívidas sociais, recriando as condições
de igualdade e de liberdade na vida do povo, concretizando o propósito
de Deus: que as relações humanas sejam caracterizadas por
amor, justiça e comunhão.
Convidamos a todos vocês, a todo o povo brasileiro, a assumir
conosco os seguintes compromissos:
1. Com a vida: denunciaremos o neoliberalismo e tudo que
atenta contra a dignidade da vida, em todas as suas dimensões;
2. Com a verdade: lutaremos pela democratização
da informação, incentivando as rádios e TVs comunitárias,
desmascarando a manipulação e a desinformação
promovidas pelos monopólios de comunicação;
3. Com a organização e a mobilização
do povo: lutaremos pelos direitos dos povos indígenas e dos
remanescentes de Quilombos, por reforma agrária, moradia digna,
emprego, saúde, educação, justiça, pela plena
realização dos direitos humanos. Combateremos todo e qualquer
tipo de discriminação e intolerância. Assumimos o Grito
dos Excluídos, o Tribunal da Dívida Externa e a Campanha
Brasil 500 Anos de Resistência Indígena, Negra e Popular;
4. Com a verdadeira democracia: queremos que o Estado seja
um instrumento da sociedade para a sociedade. Lutaremos por uma política
que garanta o exercício pleno da cidadania, contra as distorções
na representação proporcional e contra a corrupção
eleitoral promovida pelo poder econômico;.
5. Com um novo projeto de sociedade: trabalharemos pela instalação
de uma nova ordem econômica, política, social e cultural,
que rompa com a dependência frente ao capital externo, que afirme
a soberania nacional, que garanta uma vida digna e com segurança
para nosso povo e o futuro de nossa juventude. Que sejam definidos limites
orçamentários para os gastos com o pagamento das dívidas
externa e interna, compatíveis com o resgate das dívidas
sociais e ecológicas;
6. Com a educação: lutaremos por um sistema
educacional público, que garanta a todos os brasileiros uma educação
de qualidade, fundamentada nos valores da justiça e da solidariedade.
Apoiaremos as iniciativas de educação popular no campo e
na cidade;
7. Com o direito ao trabalho: lutaremos por empregos estáveis
e por salários dignos. Estimularemos iniciativas que gerem trabalho
e renda para os trabalhadores e suas famílias;
8. Com a Campanha Internacional Jubileu 2000: assumiremos
esta Campanha, que pede o cancelamento da injusta dívida externa.
No Brasil, exigiremos uma auditoria da dívida externa, possibilitando
identificar a dívida ilegítima e injusta que deve ser cancelada;
9. Com o estabelecimento de uma nova ordem internacional:
lutaremos para que a globalização financeira e excludente
seja substituída por uma globalização solidária
e ecológica.
Que esta Carta seja lida em cada casa, em cada praça, em cada
grito, em cada encontro, em cada Igreja. E que suas palavras se tornem
realidade na caminhada de cada um de nós, reforçando nossa
esperança e nosso sonho de justiça e solidariedade na construção
de uma sociedade democrática.
Itaici, agosto de 1998
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