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CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
40ª Assembléia Geral
Itaicí – Indaiatuba - SP, 10 a 19 de abril
de 2002 |
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EXIGÊNCIAS EVANGÉLICAS E ÉTICAS DE
SUPERAÇÃO DA MISÉRIA E DA FOME
"Alimento, dom de Deus, direito de todos".
Introdução
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A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunida em sua
40ª Assembléia Geral, de 10 a 19 de abril de 2002,
em Itaici/SP, comemora, neste ano, o jubileu de ouro de sua fundação.
Fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo e à Doutrina Social da
Igreja, como pastores renovamos nosso compromisso com a causa da justiça
do Reino e nossa solidariedade com o povo em seu sofrimento.
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Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias
e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações
das periferias urbanas e das zonas rurais - sem terra, sem teto, sem pão,
sem saúde - lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria,
ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos
o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome
se deve à má repartição dos bens e da renda.
O problema se agrava com a prática generalizada do desperdício.
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No entanto, é de suma importância seguir o ensinamento do
Concílio Vaticano II: "Satisfaçam-se, em primeiro lugar,
as exigências da justiça...; eliminem-se as causas dos males
não só os efeitos; seja encaminhada a ajuda de tal maneira
que, os que a recebem, pouco a pouco, se libertem da dependência
externa e se tornem auto-suficientes" (AA 8).
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A solução dos problemas supera medidas compensatórias,
exige nova mentalidade e políticas públicas que reconheçam
a alimentação adequada como direito inalienável do
ser humano. Animados pela solidariedade e pela esperança, queremos
somar forças com todos os que se empenham nesta causa.
I. Desafios prementes no início do milênio
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Ao entrar no terceiro milênio da era cristã, a humanidade
nutre, de várias formas, a esperança de realizar o ideal
evangélico da "civilização do amor", a que se
referia o Papa Paulo VI ao proclamar, incansavelmente, o desígnio
do Deus da Vida para seus filhos e filhas. No entanto, este início
de milênio tem sido marcado por temores, tristeza e desalento. Cresce
entre nós o número de assaltos, seqüestros e assassinatos
que levam a sociedade a procurar a segurança em sistemas de autodefesa,
cada vez mais sofisticados. São sinais dramáticos de perversidade
o terrorismo organizado, as operações de guerra e as chacinas.
A escalada de violência associada ao fanatismo religioso ou nacionalista
revela o desespero diante do paradoxo da atual ordem mundial.
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O século XX deixa como herança guerras e genocídios,
produção de armas de enorme poder, explosão de bombas
atômicas e destruição de cidades. Milhões de
vítimas da miséria e da fome permanecem como marcas da violência,
da injustiça e dos desmandos morais que não devemos esquecer,
para que nunca mais se repitam. As desigualdades sociais aumentam como
fruto da globalização do mercado, que concentra poder e riqueza,
enquanto faz diminuir os postos de trabalho na indústria e no campo,
degrada a natureza, causa desastres ecológicos e multiplica, a cada
dia, o número de excluídos, condenando-os ao êxodo,
ao exílio, à deterioração física e psíquica,
inclusive à perda precoce da vida. Flagelo atroz é a fome
e a desnutrição que atingem especialmente as crianças
nos primeiros anos de vida, prejudicando-as no seu desenvolvimento.
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Nossa geração se defronta com um processo de degradação
da dignidade humana, de ofuscamento de valores morais na vivência
conjugal-familiar e de corrupção da vida política
e econômica. A subestimação dos parâmetros éticos
aparece em experimentos científicos e genéticos, principalmente
na área da biologia, que, muitas vezes, desprezam a dignidade da
vida humana que deve ser respeitada desde a concepção até
seu ocaso natural.
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São fatos graves que deixam atônita a nossa geração
e exigem reflexão e esforço para que se anuncie de novo o
sentido da vida e germinem sementes de esperança.
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Herdamos também notáveis progressos nas ciências e
na tecnologia. Basta pensar nos benefícios conquistados para a humanidade
no campo da medicina, da informática, da comunicação,
do comércio, e da cultura. Temos hoje, mais do que nunca, o instrumental
teórico e prático para criar novas formas de relacionamento
harmonioso entre os grupos, etnias, culturas, religiões e nações
que compõem o formidável mosaico de mais de seis bilhões
de seres humanos. Temos recursos e tecnologia para vencer a fome. Falta-nos
o espírito solidário e evangélico para renunciar a
privilégios e libertar-nos do vírus do egoísmo.
Falta-nos, ainda, decisão política.
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Por serem a fome e a desnutrição a dimensão mais pungente
e visível da miséria, devem ser o primeiro alvo da cooperação
internacional e do mutirão que propomos. Além da fome, outras
manifestações da miséria precisam ser denunciadas
e enfrentadas como a precariedade na distribuição e tratamento
da água, no saneamento básico, na educação,
na habitação, no vestuário, no atendimento médico,
até atingirmos um patamar aceitável de vida digna para todas
as pessoas, visando o atendimento de todos os seus direitos humanos indivisíveis.
Drama da fome no Brasil
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Para compreender o drama de dezenas de milhões de brasileiros vítimas
da fome, impõe-se afastar explicações insuficientes
ou inconsistentes.
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Alguns argumentam que não há comida para todos; outros sustentam
que não há infraestrutura eficiente para sua distribuição.
No entanto, o crescimento da população é inferior
ao da produtividade agrícola. Temos capacidade de produzir alimento
bastante para o consumo interno e para exportação. A combinação
das redes pública e particulares de armazéns é capaz
de atingir toda a população, em qualquer parte do Brasil.
Apesar disto, existe gente passando fome porque a renda familiar não
permite comprar a comida que o mercado oferece.
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As raízes da fome estão, especialmente, na distribuição
iníqua da renda e das riquezas, que se concentram nas mãos
de poucos, deixando, na pobreza, enormes contingentes populacionais nas
periferias urbanas e nas áreas rurais. Essa concentração
de renda e riqueza vem de longa data e segue uma lógica na qual
o crescimento econômico do Brasil sempre aumenta a riqueza dos ricos,
sem estender seus benefícios a quem não tem poder no mercado.
A desregulamentação e flexibilização dos mercados
vêm retirando do Estado sua função social e política,
em prejuízo de seu dever de justa intervenção na economia
e na redistribuição da renda. Entregue à lógica
do jogo de concorrência que lhe é própria, o mercado
premia os fortes e pune os fracos, aumenta o desemprego e oferece remuneração
tão baixa aos trabalhadores e à maioria dos aposentados que
não lhes permite adquirir alimento para uma subsistência saudável.
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Além dessa causa estrutural, as altas taxas para empréstimos
bancários estrangulam a produção e os juros embutidos
nas compras, a prestações, de bens de consumo recaem sobre
os pobres que pagam, proporcionalmente, mais do que os ricos. A redução
de postos de trabalho obriga um número cada vez maior de pessoas
a abrir mão das garantias da legislação trabalhista
e a aceitar qualquer atividade assalariada, como é o caso dos trabalhadores
temporários no campo e na cidade. Diante disso, o Governo pratica
políticas compensatórias, acompanhadas de exigências
burocráticas e, às vezes, de manipulação eleitoreira,
que apenas diminuem os índices negativos da sua imagem. Até
mesmo os recursos orçamentários, destinados às medidas
compensatórias, sofrem cortes para gerar superávit
destinado ao serviço da dívida pública.
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A iniqüidade do sistema consiste em conferir prioridade ao mercado,
ao lucro, ao capital financeiro em vez de reconhecer e promover, em primeiro
lugar, a dignidade da pessoa e o acesso dos pobres a níveis condignos
de alimentação, trabalho, moradia, saúde, educação,
lazer.
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A acumulação de bens, ostentada pelos meios de comunicação,
especialmente pela televisão, cria e reforça, no inconsciente
coletivo, a mentalidade de que "o dinheiro é que traz felicidade",
mesmo atropelando valores morais. Esta concepção falaciosa,
como um vírus, pervade não só a população
rica, mas cria nos pobres o sonho de ascender a uma sociedade opulenta,
imitando os padrões de consumo da minoria enriquecida.
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A conjunção destes vários fatores provoca as gravíssimas
conseqüências da miséria no Brasil e em tantos outros
países e requer uma definitiva transformação desde
a lógica do mercado, hoje mundializado e fora do alcance
de controle social ou político, até dos hábitos e
motivações pessoais marcados pelo consumismo e ambição
de riquezas.
Mudança de mentalidade: questão básica
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A condição aflitiva de larga parte de nossa população,
atormentada pelo flagelo da miséria, coloca uma questão básica
para a cidadania e a promoção do bem comum. Com efeito, como
suportar, à luz da dignidade da pessoa, a violação
sistemática do direito à vida plena e dos demais direitos
a ela inerentes?
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É inadmissível o contraste entre a situação
de miséria e degradação do povo sofrido, refugiado
nas favelas, cortiços e periferias das cidades, que chega a recorrer
à prostituição e até ao tráfico de drogas
para sobreviver, e o luxo e sofisticação de condomínios
fechados, construções suntuosas e desperdício de riquezas,
sem consideração pela miséria envolvente. O mais triste
para a consciência cristã é o fato de que a escandalosa
desigualdade acontece, infelizmente, pela falta de testemunho evangélico
de vida, criando ofuscamento da consciência, frieza e alienação
diante do sofrimento humano e descrédito para o anúncio da
Boa Nova.
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A injustiça social assume proporções de ofensa a Deus,
que nos criou à sua imagem e semelhança, e se opõe
ao mandamento do amor fraterno que Jesus Cristo instituiu como lei da nova
e eterna aliança. O resgate da dignidade dos pobres não pode
limitar-se à assistência emergencial, mas exige a transformação
da sociedade e da economia, numa nova ordem voltada para o bem comum.
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Apresenta-se aqui um impasse de difícil superação,
uma vez que as transformações estruturais exigem, para serem
empreendidas com eficácia, alteração nas leis que
não pode ser concretizada sem mudança profunda de mentalidade.
Estamos dispostos a reconhecer a nossa conivência com o apego aos
bens materiais? Percebemos que toda convocação para uma ação
conjunta por parte da Igreja, em colaboração com as demais
entidades da sociedade, requer, como pressuposto, o testemunho evangélico
e ético? Como implantar na própria Igreja uma economia de
solidariedade? O exemplo das primeiras comunidades, que perseveravam nos
ensinamentos dos apóstolos, na fração do pão,
na partilha fraterna e na oração nos convence de quanto é
ilusório o bem-estar egoísta quando comparado à alegria
de uma convivência fraterna, em que todos têm acesso a condições
de vida dignas.
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É neste espírito de conversão pessoal e comunitária
que a CNBB conclama a todos para que, o quanto antes, se possa vencer a
mentalidade de apego aos bens materiais e ao consumismo e alcançar
a superação da miséria. Somente vencendo o egoísmo
e a indiferença, assegura-se o pão de cada dia para todos.
Como exorta o Papa, a Igreja está obrigada, por vocação,
a aliviar a miséria dos que sofrem, próximos e distantes,
não só com o supérfluo, mas também com o necessário
(SRS 31). Façamos o que depende de nós para que as sementes
de esperança do Reino de Deus, já nesta terra, dêem
fruto de vida.
II. Exigências Evangélicas
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Deus, Criador e Senhor da Vida, garante com fartura, em bem da humanidade,
a fecundidade da natureza e os meios para que todos possam viver e desenvolver
seus talentos, sem depredar os recursos naturais do planeta. O Salmo 104
descreve esse projeto dizendo: De tuas altas moradas irrigas os montes,
com o fruto das tuas obras sacias a terra. Fazes crescer o feno para o
gado, e a erva útil ao homem, para que tire da terra o seu pão.
Também as aves e animais recorrem ao Criador: "rugem os leõezinhos
em busca de presa e pedem a Deus seu alimento (...) Tu lhes forneces e
eles o recolhem, abres a tua mão e saciam-se de bens". (10-28).
Dom de Deus para todas as suas criaturas, sem exceção, o
alimento garante a continuidade da Criação.
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O Antigo Testamento registra, esplendidamente, a tradição
e a experiência da fé do Povo de Israel, raízes de
nossa fé cristã, e nos ensina o lugar fundamental da consciência
ética da superação da miséria e da fome, como
elemento constitutivo desta mesma fé. Os profetas acentuam a inseparável
ligação do culto a Deus e a prática da justiça,
na defesa dos direitos dos oprimidos, no sustento dos pobres e no compromisso
com a causa da viúva (Is 1,17; Jr 7, 3-7). O mesmo ensinamento encontramos
no Eclesiástico: "Quem oferece um sacrifício com os bens
dos pobres é como quem imola um filho na presença do pai.
A vida dos pobres é o pão de que necessitam; quem dele os
priva é um assassino. Quem subtrai o pão do suor, é
como quem mata o seu próximo; derrama sangue quem defrauda o assalariado"
(Eclo 34,20-22).
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O Eclesiástico retoma a mais antiga tradição já
contida no texto do Deuteronômio: "Não negarás a
paga a um pobre e indigente, seja ele um irmão teu, seja um estrangeiro
que mora no país, numa de tuas cidades. Dá-lhe no mesmo dia
o salário para que o sol não se ponha sobre a dívida,
pois ele é pobre, e o salário significa o seu sustento. Do
contrário, clamaria ao Senhor contra ti, e tu virias a ser culpado
de um pecado" (Dt 24, 14-15).
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No Novo Testamento, Jesus de Nazaré, Filho de Deus e Nosso Salvador,
resgata e ultrapassa a tradição do seu povo e se revela como
o Pão que sacia toda a fome de vida. Deu-nos o pão da Palavra
e na Eucaristia entrega seu corpo como alimento de vida eterna. Ensinou-nos
a pedir ao Pai Celeste o Reino e o pão de cada dia e a reparti-lo
com os irmãos. Sua ação salvífica e sua morte
redentora o revelam como mestre da compaixão e da misericórdia.
"Jesus começou a percorrer todas as cidades e povoados,
ensinando em suas sinagogas,
proclamando a Boa Nova do Reino e curando todo tipo de doença
e de enfermidade.
Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão
por elas, porque estavam cansadas e
abatidas, como ovelhas que não têm pastor" (Mt 9, 35-36).
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Jesus passou fazendo o bem, veio para dar vida, e vida em abundância
(Jo 10,10). Fez-se carne, presença salvífica para a humanidade.
Colocou-se ao lado dos indefesos, dos marginalizados, dos oprimidos e até
dos estrangeiros e dos pecadores. Emprestou-lhes a voz, transmitiu força
messiânica e a misericórdia do Pai. Com isto agiu contra a
marginalização e combateu um sistema de profunda exclusão
social, econômica, política e religiosa.
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Nesta perspectiva, Jesus não tinha apenas uma boa notícia
para os pobres, Ele era e é a Boa Notícia,
trouxe a vida plena e eterna para todos. Seu coração misericordioso
e compassivo estava em profunda sintonia com o sofrimento do povo empobrecido,
o qual aprendeu a ver n’Ele uma novidade em pessoa (Lc 4,18). "Todos
testemunhavam a favor d’Ele, maravilhados com as palavras cheias de graça
que saíam de sua boca" (Lc 4,22), pois "Ele ensinava como
quem tem autoridade" (Mc 1,22).
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Essa autoridade se expressa no serviço e compaixão que levam
à encarnação no cotidiano dos empobrecidos, nos porões
do sofrimento humano – na rua, nos presídios, nos prostíbulos,
nos lixões... Pode parecer um paradoxo, mas é ali que se
revelam, com mais força, os traços do rosto misericordioso
de Deus e onde se encontram os prediletos do amor de Jesus, como podemos
notar nas bem-aventuranças (Mt 5,1-12), na parábola do bom
samaritano (Lc 10,25-37) e em tantas outras passagens do Evangelho. É
possível, então, levantar a voz em seu nome, com a legitimidade
que ultrapassa o conhecimento científico e alcança o conhecimento
profundo que só o amor pode garantir.
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O preceito evangélico de "dar de comer a quem tem fome, vestir
o nu, visitar o doente e o prisioneiro, acolher o migrante" (Mt 25,31-46)
não se reduz à prática assistencial. Quando se atende
somente às expectativas imediatas dos pobres, corre-se o risco de
perpetuar a desigualdade social. A caridade evangélica
é fundamento do agir cristão e requer a promoção
humana e a libertação integral. É gesto de quem se
dá. De quem coloca a serviço do outro as suas melhores
energias, seu espaço, sua influência social e política,
e não migalhas de tempo ou de poder. As primeiras comunidades aprenderam
a lição do Senhor e viviam a comunhão fraterna e o
gesto de quem partilha as primícias e não as sobras. Assim,
não havia necessitados entre eles.
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Partilhar com o outro o seu sofrimento, a exemplo de Jesus, não
é dar coisas, mas dar-se. É colocar-se a serviço,
gastar tempo, estar ao lado de quem sofre. É ceder ao outro as próprias
forças, para que ele possa abrir os olhos, organizar-se, resgatar
a auto-estima, a identidade, seus valores mais profundos e assim erguer
a cabeça, levantar-se e seguir adiante. Jesus reconhece as potencialidades
de quem está temporariamente fragilizado, e confia em sua capacidade
de agir.
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Compaixão significa também ser solidário, gastar tempo
e recursos com a organização dos pobres. Desta forma, apoiados
e respaldados, eles poderão erguer a voz, mobilizar as forças
e lutar pelo sagrado direito de viver com dignidade e esperança.
Não se trata de fazer para, mas de fazer com o pobre,
o qual é o sujeito privilegiado da própria libertação.
Libertar-se implica num processo coletivo que requer empenho e solidariedade.
Ninguém se liberta sozinho.
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É um caminho que leva ao sofrimento e à morte, como levou
Jesus à cruz. É também a via que conduz à ressurreição,
vida nova para os pobres e realização pessoal para quem se
coloca a seu lado e decide assumir concretamente a sua causa, como atestam
tantas testemunhas ao longo da história.
III. Exigências éticas
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A dignidade eminente do ser humano implica a exigência de preservação
de cada pessoa. Por isso, o alimento não é direito apenas
de quem tem poder de compra, nem só de quem produz, mas direito
de todos. A consciência moral reconhece o dever de garantir esse
direito para as crianças, os portadores de deficiências e
os idosos. O direito à vida exige a justiça distributiva
e está acima dos critérios do mercado.
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Ninguém deveria sentir-se ameaçado de cair na miséria,
nem de passar fome. A Segurança Alimentar implica quantidade,
qualidade, permanência e adequação dos alimentos aos
hábitos culturais. O alimento não seja tratado como uma mercadoria
entre outras, que são produzidas e acumuladas, segundo o interesse
de seu possuidor. Enquanto o ser humano estiver passando fome, é
imoral estocar alimentos para garantir lucros especulativos. Cabe a justa
intervenção e regulação do Estado, para que
o desenvolvimento não venha produzir novas formas de miséria
e fome.
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A dignidade da pessoa humana exige, naturalmente, o aspecto social, que
começa na família. Ter moradia decente e alimentar-se
em torno da mesa familiar é um direito, porque ali são criados
os alicerces da vida social.
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As refeições em família são uma oportunidade
excelente de consolidação de laços sociais internos
e de sua extensão a outras pessoas que, participando da mesma mesa,
agregam-se àquele núcleo humano. A prática da comensalidade,
revestida de valor religioso, explicitado na ação de graças
e bênçãos, deve ser incentivada e asseguradas as condições
para sua regularidade.
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A segurança alimentar estende-se a toda a humanidade, aí
compreendidas as próximas gerações. Ninguém
tem o direito de depredar os recursos naturais do Planeta, mas está
obrigado a levar em conta a vida das gerações futuras. Por
isso, requer-se racionalidade e controle público no uso de agrotóxicos,
muita cautela na produção de alimentos transgênicos,
respeito à biodiversidade e reciclagem do lixo.
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Garanta-se o livre acesso de todos os seres humanos às fontes
de vida. A terra, a água, o ar, as sementes e a tecnologia,
bens comuns a serviço de todos, devem ser objeto de regulamentação
pelo poder público, não podem ficar à mercê
da propriedade privada e do mercado, como ocorre com as leis de patenteamento.
Neste sentido:
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afirmamos a atualidade e a pertinência da oposição
entre terra de trabalho e terra de negócio;
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invocamos a urgência da Reforma Agrária e de uma política
agrícola, como meios para a redistribuição da terra
e para o desenvolvimento da agricultura familiar e de cooperativas;
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condenamos a proposta de mercantilização das águas;
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recomendamos uma política pública de distribuição
de sementes e difusão de tecnologias agrícolas adequadas,
contra todo monopólio de patentes na área alimentar.
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Esse direito universal à segurança alimentar, assumido no
artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, em 10 de dezembro de 1948, encontra todo respaldo na Doutrina
Social da Igreja. De seu princípio fundamental de defesa da
vida, desde a concepção até à morte natural,
decorrem os princípios da destinação universal dos
bens, da hipoteca social que pesa sobre toda propriedade, da primazia do
trabalho humano sobre o capital e da necessidade de novos postos de trabalho.
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Atualizando a Populorum Progressio no contexto do Jubileu de 2000,
João Paulo II fala da necessidade de se "pautarem decididamente
os processos de globalização econômica em função
da solidariedade e do respeito devido a cada pessoa humana" e deixa no
ar a pergunta: "Como é possível que, no nosso tempo, ainda
haja quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva
privado de cuidados médicos elementares, quem não tenha casa
onde se abrigar?" (NMI, 10 e 14). Se "o desenvolvimento é o novo
nome da Paz", conforme ensinou-nos Paulo VI, só alcançaremos
a Paz tão desejada na medida em que a economia de fato colocar-se
a serviço do ser humano, invertendo-se a lógica do mercado
hoje prevalente.
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Da afirmação da dignidade do ser humano decorre, também,
o princípio ético da solidariedade. O outro, que sofre
na miséria ou passa fome, interpela e atinge nossa própria
identidade de ser humano. Não se deixar interpelar e não
agir diante da pessoa vilipendiada pela miséria é desumanizar-se.
Participar do resgate da dignidade do outro, ao contrário, é
humanizar-se com ele. Enquanto houver um ser humano vitimado pela miséria
ou pela fome, é a humanidade toda que sofre em sua dignidade ofendida.
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O exercício da solidariedade não deve ser confundido
com certas práticas de assistência que humilham quem recebe.
É preciso aprender a lição de ética que dá
o povo da rua quando reparte o pouco que tem, para que todos sobrevivam.
Essa ética popular, com mais razão, interpela a sociedade
a repartir a abundância para que todos vivam humanamente, hoje e
no futuro.
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Decorre, ainda, da dignidade da pessoa, a exigência da simplicidade.
Com efeito, a frugalidade no estilo de vida é hoje condição
de sobrevivência biológica da espécie humana. Cresce
a consciência de que o atual padrão de consumo dos setores
sociais privilegiados não pode ser estendido a todos, nem se sustenta
social e ecologicamente. Precisamos abdicar do sonho consumista, ilusoriamente
inculcado pela propaganda, e implementar uma globalização
solidária, a partir de um estilo de vida inspirado no Evangelho.
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Tudo isso nos leva finalmente a rejeitar a soberania do mercado,
que estimula a produção de bens tendo em vista unicamente
o lucro que pode obter no atendimento à demanda. O mercado, como
a economia em sua totalidade, é um meio a serviço das necessidades
humanas e, portanto, é preciso que se submeta ao controle e ao monitoramento
da sociedade. Como nos alerta João Paulo II, "o direito à
propriedade privada está subordinado ao direito do uso comum, à
destinação universal dos bens" (Laborem Exercens,
14).
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De modo especial, faz-se necessário o controle da especulação
financeira, que aplica capitais nos mercados futuros, negociando mercadorias
meramente virtuais, ao invés de aplicá-los na produção
de bens reais. Esta especulação agrava os efeitos nocivos
da globalização, uma vez que até mesmo os capitais
dos países pobres foram atraídos para a ciranda financeira
mundial.
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Enfim, tudo converge para o imperativo ético do respeito à
vida, que está acima dos contratos humanos. O Poder Público
é obrigado a atender, prioritariamente, a todos os cidadãos
em situação de fome ou miséria, ainda que para isso
venha a alterar ou reduzir o pagamento de suas dívidas, pois a fome
não espera e a vida está acima da dívida.
IV. Promoção dos Direitos Sociais
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A Constituição "Cidadã" de 1988 inova, em seu Preâmbulo,
ao tratar da erradicação da pobreza e da marginalização,
ao propor a redução das desigualdades sociais e regionais.
Nela, os direitos sociais ou coletivos ganham um espaço próprio;
constrói-se uma estrutura de participação social,
prevê-se financiamento específico para exercê-los e
se definem diretrizes específicas nos vários capítulos
da ordem social, a exemplo da Seguridade Social, Educação,
Cultura e Desporto, Meio Ambiente, Família, Criança e Adolescente,
Índios, Função Social da Propriedade e Comunicação
Social.
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Assim, as privações ou vulnerabilidades humanas "clássicas"
– enfermidades, velhice, viuvez, invalidez, desemprego, acidente de trabalho
etc – lograram obter novo tratamento na política social. Essas situações
de desamparo humano passaram a compor o campo dos direitos sociais,
independentemente dos vínculos formais de trabalho e dos procedimentos
assistencialistas prevalecentes até então.
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Decorridos 13 anos de sua promulgação, o balanço das
inovações no campo das políticas sociais mostra alguns
frutos como a universalização de direitos na Previdência
e Assistência Social, a tímida e morosa reforma agrária
e o sistema nacional e descentralizado de saúde pública,
ainda que sob preocupantes restrições de recursos com graves
conseqüências para a vida do povo.
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Temos um longo caminho a percorrer, pois, os governos pouco fizeram no
campo dos direitos sociais, conformando-se antes a uma agenda monetarista
e colocando a política financeira acima do desenvolvimento da cidadania.
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A principal lição desse processo no qual os direitos são
reconhecidos, mas pouco implementados, é que só prevalecem,
na agenda da política social, os direitos respaldados pela consciência
de cidadania e pela participação política de entidades
e movimentos sociais organizados. São eles que, em última
instância, resgatam as conquistas jurídicas para a vida prática.
V.Tornar o alimento, Dom de Deus, direito de todos
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Garantir o alimento para todos, superando a miséria e a fome, exige
de cada um de nós o engajamento pessoal. Mais do que isto, supõe
a experiência pessoal do humilde e corajoso processo de gestação
de uma nova sociedade, que atenda aos direitos e às necessidades
básicas da população: educação, saúde,
reforma agrária, política agrícola, demarcação
das terras indígenas e das terras remanescentes de quilombos, distribuição
de renda, reforma fiscal e tributária, moradia. Exige, também,
que desenvolvamos novas relações de trabalho e de gestão
da empresa, criando uma economia de comunhão comprometida com a
solidariedade e atenta às exigências da sustentabilidade.
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Por tudo isso, a superação da fome e da miséria transcende
a esfera eclesial e exige a participação de toda a sociedade
na busca de soluções eficazes e urgentes e impõe um
amplo debate, em âmbito nacional, sobre as prioridades das Políticas
Sociais.
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A promoção do direito à alimentação
e à nutrição é dever primeiro do Estado e dos
governos, não deixando faltar a nenhuma pessoa alimento em qualidade
e quantidade suficientes para atender às necessidades de seu organismo.
Não se atinge, no entanto, esse objetivo sem o fortalecimento dos
mecanismos e instituições de diálogo e de parceria
entre o governo e a sociedade, incluindo os mais sofridos.
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Alegra-nos reconhecer o bem que, nas diversas Dioceses, as comunidades,
pastorais e associações realizam em favor dos mais pobres.
Lembramos toda a ação caritativa da Igreja e a dedicação
dos que atuam nas creches, nos lares de idosos e em tantas obras a serviço
dos irmãos. É o momento de aprendermos uns com os outros
e somarmos forças para uma ação mais abrangente que
envolva toda a sociedade, tornando o alimento, Dom de Deus, acessível
a todos.
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A CNBB empenhar-se-á em dar suporte às coordenações
de ação social nas Dioceses, especialmente por meio da Cáritas,
a fim de que o Mutirão Nacional para a Superação
da Miséria e da Fome seja o elemento unificador de seus programas
e projetos sociais. Para isso, faz-se necessário constituir uma
Comissão Episcopal que articule as iniciativas necessárias,
em âmbito nacional e regional. A proposta se estende a outras Igrejas
e Tradições Religiosas, às organizações
e instituições da sociedade brasileira, a fim de construirmos
juntos o Mutirão Nacional.
Propostas concretas
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Nas Dioceses e em seus diversos níveis de organização,
sejam convocadas pessoas da própria comunidade eclesial a fim de
formar grupos que assumam o Mutirão Nacional de Superação
da Miséria e da Fome. Aproveite-se a experiência dos grupos
existentes, especialmente das equipes de pastoral social, auxiliando-os,
à luz do Evangelho, a dar testemunho de novos valores e hábitos,
renunciando ao consumismo, evitando o desperdício e promovendo a
sobriedade em prol de uma vida simples e frugal.
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Desenvolva-se um processo educativo no sentido de formação
e informação especializadas sobre direitos e deveres individuais
e sociais, como importante exercício pedagógico a ser realizado
pelas igrejas e movimentos sociais.
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Compete aos grupos do Mutirão Nacional:
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identificar as necessidades da população do município
e estabelecer metas claras a partir de indicadores e prazos definidos e
monitoráveis, recorrendo, na medida do possível, a dados
e análises cientificamente fundamentados por sociólogos e
economistas, aproveitando-se da ajuda de universidades;
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acompanhar criticamente a composição e atuação
dos Conselhos Paritátios e de Direitos (de saúde, da criança
e do adolescente, da educação e de assistência social)
valorizando-os;
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priorizar o acompanhamento nutricional de gestantes e crianças até
6 anos e urgir o efetivo funcionamento do Sistema de Vigilância Alimentar
Nutricional;
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garantir a gratuidade do registro de nascimento para todas as pessoas,
conforme a lei;
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preparar pessoas para a função de multiplicadores, evitando
a manipulação dos políticos;
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formar lideranças para o efetivo exercício da cidadania;
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motivar os adolescentes e os jovens para que se insiram nos diversos grupos,
oferecendo acompanhamento e possibilitando-lhes o exercício do voluntariado;
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articular-se em âmbito municipal e estadual em integração
com o Mutirão Nacional.
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No desenvolvimento do Mutirão, procure-se:
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produzir subsídios em âmbito local, regional e nacional, dando
atenção aos dados técnicos, a fim de capacitar lideranças
para elaborar projetos e organizar os conselhos de direitos;
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divulgar a lista de subsídios e iniciativas práticas do Mutirão
Nacional em seus vários níveis;
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organizar uma equipe de comunicação;
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preparar programas de rádio e clipes para TV;
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educar para o melhor aproveitamento do alimento produzido, evitando todo
o desperdício;
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criar e incentivar as cooperativas comunitárias que favoreçam
pequenos agricultores e pequenas indústrias;
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propor e acompanhar medidas legislativas que contribuam para a superação
da miséria e da fome;
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organizar um banco de dados da realidade;
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anotar os resultados obtidos para avaliação.
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O programa do Mutirão Nacional insere-se na ação evangelizadora
da Igreja e articula-se com outros projetos da CNBB, em colaboração
com outras forças da sociedade organizada.
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Dentre os projetos mais afins ao Mutirão Nacional destacam-se: a
campanha pela construção de um milhão de cisternas
no semi-árido brasileiro; a Ação da Cidadania Contra
a Fome e a Miséria e pela Vida; o Fórum Brasileiro de Segurança
Alimentar e Nutricional; a campanha nacional pelo limite máximo
da propriedade da terra; a campanha pela aprovação do Estatuto
dos Povos Indígenas; a campanha pela participação
consciente no processo eleitoral; a criação de comitês
da lei 9840 contra a corrupção eleitoral. Some-se a isso
o empenho pela articulação em defesa da soberania nacional
e da segurança alimentar, ameaçadas por tratados continentais
e internacionais.
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Consideramos marco importante do Mutirão a realização
de um simpósio nacional para contribuir com a definição
das bases de ação da sociedade e do governo, visando a superação
da miséria e da fome. As conclusões desse simpósio
serão encaminhadas à Presidência da República,
aos Governos Estaduais e Municipais, ao Congresso Nacional, às Assembléias
Legislativas Estaduais e aos partidos políticos.
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Com os olhos voltados para o problema da fome no mundo, consideramos igualmente
importante acompanhar o processo de preparação e de continuidade
da Cúpula Mundial de Alimentação, promovida pela ONU.
VI. Conclusão: "Dai-lhes vós mesmos de comer"
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Um dos primeiros sinais de efetiva evangelização, no início
deste milênio, será a eliminação da fome decorrente
da miséria, em nosso país. Em espírito de conversão,
a CNBB convoca a todos para um grande Mutirão Nacional pela
Superação da Miséria e da Fome, como resposta
ao imperativo do evangelho: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mc
6, 37).
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Para vencer tamanho desafio, associando-nos a todas as pessoas de boa vontade
da Igreja Católica, de outras Igrejas cristãs e grupos religiosos,
dos movimentos populares, dos sindicatos, instituições e
Poderes Públicos, imploramos as bênçãos de Deus
e a proteção de Maria.