SAÚDE MENTAL COMUNITÁRIA
CURSO DE TERAPIA COMUNITÁRIA
Com a modernização da sociedade brasileira, se intensificam os movimentos migratórios e a concentração de populações em torno das grandes cidades lutando por emprego, educação, habitação, saúde e sofrendo toda forma de violência.
O que caracteriza esta nova realidade é o empobrecimento dos laços afetivos, provocando a destruição dos laços sociais. O novo contexto se caracteriza por muitas perdas. Perde-se o saber, amigos e inúmeros são aqueles que perdem sua história e a sua própria identidade e ingressam na doença mental.
Na Comunidade de Quatro Varas - Pirambu, em Fortaleza, o Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará desenvolve um trabalho de Terapia Comunitária, onde procura construir um modelo de atendimento às pessoas estressadas ou vivendo uma situação de crise, que leva em conta três elementos básicos:
1- discussão e realização, em nível de comunidade, de um trabalho de saúde mental preventiva e curativa, procurando engajar todos os elementos culturais e sociais ativos da comunidade: líderes comunitários, educadores, curandeiros, poetas, artistas populares, num processo de revitalização da memória;
2- ênfase no trabalho de grupo;
3- criação de uma consciência social gradativa.
Enfim, deseja-se criar, em nível de comunidade, um espaço de expressões das mais diversas, lugar de diálogo e encontro de vocação terapêutica.
Nosso objetivo é reforçar os espaços afetivos entre as pessoas e procurar intervir como um comunicador preocupado em clarificar as mensagens, os não ditos e sobretudo a ajudá-los a tomar consciência das implicações humanas na gênese das crises e conflitos, para que a comunidade possa se implicar na resolução dos problemas.
O indivíduo descobre que ele não está sozinho, isolado, perseguido, mas que ele pertence ao mundo dos explorados, dos oprimidos. Desta maneira, o problema deixa de ser um problema individual ou familiar e torna-se coletivo com a convicção que toda sociedade tem suas implicações e deve igualmente ser questionada e transformada.
Os indivíduos descobrem que juntos constituem uma força, que eles possuem recursos próprios na busca de soluções.
Na sua pobreza descobrem sua grande riqueza. E assim eles procuram muito mais investir na busca de soluções tornam-se menos independentes das forças externas e capazes de formular suas necessidades junto às instituições.
Os problemas apresentados pelo grupo servem como elemento mobilizador de energias e investimentos. Nesta perspectiva, nossa intervenção se apóia nos valores da cultura local como as músicas, danças, orações, etc.
Recentemente nós integramos os dos Índios Tremembé, que fazem a dança da aranha com sua teia, como forma de lembrar a comunidade da necessidade de proteger o indivíduo ameaçado pela fragmentação da nova vida e de reforçar a teia das relações humanas, a única capaz de apoiar os indivíduos.
Nestes nove anos de experiência temos aprendido muito. As reuniões têm se tornado um espaço de expressão de sofrimentos e de reconstituição de esperanças.
Nossa grande descoberta tem sido de constatar que os melhores terapeutas estão na própria comunidade.
Os problemas são apresentados no grupo reunido, que discute, sugere soluções adaptadas à realidade comum.
Nossa presença tem servido para suscitar esta dimensão terapêutica da própria comunidade.
Nossa grande preocupação é de investir na prevenção e de criar um sistema de saúde mental para as pessoas em crise, levando em consideração as especificidades da cultura.
Por último colocaríamos que nossa proposta rompe com uma forma de pensar e agir que considera que: "o povo é ignorante; a tradição é um obstáculo para o progresso; só o modelo ocidental é válido"...
Esta experiência da Universidade Federal do Ceará está sendo extendida a todo o Brasil graças a Pastoral da Criança, que conosco está formando os Terapeutas Comunitários da Pastoral.
Eles irão atuar em suas comunidades, fazendo as terapias comunitárias para ajudar a resolver as crises e conflitos. Também estão sendo formados os Terapeutas Corporais, que através de massagens irão aliviar a dor e o sofrimento das pessoas estressadas, cansadas e que necessitam de apoio.
Dr. Adalberto Barreto
Médico;Professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará; Diretor do Centro de Estudos da Família de Fortaleza e Coordenador do Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária de Fortaleza.