ALOJAMENTO CONJUNTO

 

Grupo de Defesa da Criança - GDC (*)

O alojamento conjunto é uma ótima solução, para a população, para o pessoal médico, para os donos de maternidades, e em especial para a própria criança. Porque então não é adotado ampla e entusiasticamente por todos? O alojamento conjunto tem um sério problema de imagem. A população foi induzida a crer, por propagandas tão mais enganosas quanto subliminares, que a cesariana e o aleitamento artificial liberam a mulher das dores e trabalhos inerentes ao parto e à amamentação. Grande engano. A cesariana dói muito mais, se considerarmos todo o período pós cirúrgico. E o aleitamento artificial logo depois do nascimento pode levar a situações que afligiram e afligem muitas famílias, como alergias alimentares e gastroenterites graves. O stress e angústia da criança gravemente doente são muito piores do que alguns desconfortos e incoveniências para a mãe que amamenta, que , por outro lado , extráe prazer e bem estar da amamentação, superadas as dificuldades iniciais. A tradição entre as mais diversas culturas foi manter os dois juntos. Deve-se observar, entretanto, que o abandono das crianças nas ruas ou adros das igrejas foi comum durante muitos séculos. O recolhimento destas crianças em asilos, meritório nas intenções, não evitava a morte da maioria delas. Além do mais, foi também frequente a utilização das amas de leite, que deixava a criança ser alimentada ao seio da escrava, muitas vezes em detrimento de seu próprio filho. O pai, em muitas culturas antigas, podia decidir se o filho viveria ou não. Isto, que hoje horroriza, era prática bem estabelecida e aceita pela sociedade, às voltas com problemas sérios de sobrevivência. Assim, as tentativas de se livrar e livrar a sociedade dos ônus da maternidade ou da paternidade são antigas. Com a introdução das maternidades e dos partos assistidos por médicos nos hospitais a separação mãe-filho ganhou novas conotações e força. Foi em 1880 que Tarnier, um obstetra da Maternidade de Paris, instalou a primeira incubadora para prematuros. O norte-americano Martin Cooney apresentou um modelo mais prático e mais barato na Exposição de Berlim , em 1896, com muito sucesso. Em 40 anos ele salvou a vida de 5 mil prematuros, com a sua incubadora. O francês Budin, em 1898, tornou-se o responsável pelo primeiro berçário em um hospital, mas seu objetivo era salvar a vida de prematuros. Mesmo com os bebês nas incubadoras, o Dr. Budin preconizava que as mães amamentassem os filhos ao peito.

Cooney seguiu um caminho diferente: criou berçários para bebês sadios e proibiu as mães de cuidar dos seus bebês. Mesmo reconhecendo a elevação do índice de rejeição, ele insistiu em que os berçários eram o único meio de reduzir a alta incidência de mortalidade neo-natal por problemas infecciosos, principalmente as infecções respiratórias agudas e as diarréias, que ele atribuia ao "foco infeccioso que é a mãe, principalmente sua flora vaginal". Princípios semelhantes foram aplicados ao cuidado das crianças nos asilos para órfãos e abandonados, melhorando drasticamente os resultados. Ao lado dos cuidados de isolamento, de higiene ambiental, a pasteurização do leite e a melhor higiene dos alimentos reduziram dramaticamente a incidência das diarréias. A maioria destas novas práticas bem sucedidas, bem como alguns de seus mal entendidos, resultou dos conhecimentos introduzidos por Pasteur e sua escola microbiológica. Desta forma, os prematuros passaram a sobreviver, sem a presença da mãe; do mesmo modo, as crianças abandonadas ou órfãs. Estes progressos, bons em si mesmos, contribuiram infelizmente para uma substimação do papel da mãe para a criança. Junto com isto, outros fatores, como a aspiração social das mulheres por maior independência na sociedade e a sua liberação para o mercado de trabalho. Portanto, a separação mãe filho , a alimentação artificial, os berçários, as creches, resultaram da interação de muitos interesses pessoais e sociais. A que preço? Estamos descobrindo ainda. A evolução da psicossomática, da psicodinâmica e da fisiologia aplicada ao comportamento e os resultados negativos de caráter clínico patológico que resultaram da concentração de crianças nos berçários, levantaram dúvidas sobre o sistema de separar mãe e filho. O assunto dividiu os obstetras. O médico norte-americano Gesell e muitos outros defendiam a volta ao método clássico, ele foi o primeiro a usar a expressão rooming in , referindo-se a um ambiente do hospital onde o recém-nascido é colocado em um berço junto da mãe. Outros defendiam o berçário privativo, dentro do quarto, ou o berçário pequeno, apenas para dois bebês, quatro no máximo. A hospitalização de crianças sem a presença da mãe levava frequentemente a quadros depressivos bem descritos por Spitz, e ao abandono das crianças nos hospitais. Epidemias de berçário em vários hospitais aceleraram os debates sobre o alojamento conjunto. Em 1955 o Centro Internacional da Infância, de Paris, já enfatizava a necessidade da mãe dar atenção global à criança nos primeiros anos de vida, levando em conta suas necessidades afetivas e de socialização, a importância da estimulação psicomotora e da sua presença para dar tranquilidade e confiança. No Brasil, grandes pediatras, desde a primeira metade deste século, defenderam ardentemente o alojamento conjunto e o aleitamento materno, como Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro, Pedro de Alcantara, em São Paulo, e Martagão Gesteira na Bahia.

Durante a 5a. reunião de Perinatologia do Ministério da Saúde, em 1977, debateram-se as normas de assistência à gestante e ao recém-nascido. O documento final recomendava a todas as matenidades do país que adotassem o alojamento conjunto , afirmando: "as crianças recém-nascidas, que não necessitem de cuidados especiais, permanecerão junto às mães e não mais nos berçários dos hospitais, tão logo recebam os primeiros cuidados, sejam identificadas e submetidas ao exame físico inicial." Uma resolução de setembro de 1983, do INAMPS, criou a obrigatoriedade do alojamento conjunto nas maternidades próprias, conveniadas e contratadas. Uma portaria de setembro de 1987, do Ministério da Educação, tornou obrigatório o alojamento conjunto nos hospitais universitários. Uma lei federal de 1990(8.069) determina a instalação de alojamento conjunto em todos os hospitais brasileiros. Hoje, o alojamento conjunto é recomendado pela Organização Mundial de Saúde e por todos os grandes especialistas do mundo. Recolhendo seus argumentos, temos uma extensa lista de motivos para a recomendação, porque o alojamento conjunto: