Sem cerca de arame farpado
Teresa da Costa D´Amaral
Não estamos em guerra. Nem mesmo procuramos esconder com cerca de
arame farpado. Mas o Brasil tem seu próprio campo de concentração.
Mantemos entre nós aproximadamente dois milhões de brasileiros
deficientes sobrevivendo sem nenhuma possibilidade de acesso à saúde,
educação, à reabilitação.
A Organização das Nações Unidas calcula que
a população deficiente em países com as características
sócio-econômicas do Brasil é 10% da população
global. Assim, cerca de 15 milhões de brasileiros portam algum tipo
de deficiência, mental, física ou senrorial. Nem estatísticas
oficiais temos. E se juntarmos a esse número os estudos que dizem
que 12% da população vivem com até meio salário-mínimo,
teremos em torno de dois milhões de deficientes sobrevivendo com
essa renda familiar.
A Nação brasileira mantém cerca de dois milhões
de brasileiros presos em suas deficiências, sem as mínimas
condições de respeito ao ser humano. Cegos sem bengalas,
amputados sem muletas, paraplégicos sem cadeiras de rodas, surdos
sem comunicação, deficientes mentais isolados, todos vivendo
no fundo do nosso quintal, no nosso quarto dos fundos, como se o mundo
já não vivesse as grandes perspectivas de integração
do deficiente.
Temos um grande campo de concentração escondido na inconsciência
generalizada e não nos devemos contentar com uma lista de Schindler
pessoal. É preciso ganhar a guerra. É preciso denunciar que
o campo existe e que só poderemos viver uma democracia quando a
guerra for vencida, quando. houver em nosso país consciência
da existência de 15 milhões de brasileiros portadores de deficiência
com os mesmos direitos e deveres de todos nós.
Antes de qualquer avanço nesse campo, uma posição
importante a ser conquistada é a transformação do
que hoje muitos acreditam ser um problema menor, um problema do outro,
em uma preocupação da sociedade. As minorias estão
encontrando seu espaço entre as reivindicações de
cidadania e é preciso fazer reconhecer a questão do deficiente
como uma questão social. Porque ela é mais do que um, problema
de educação especial, de reabilitação física
ou profissional, de inserção no mercado de trabalho. É
mais do que a atitude de discriminação e preconceito que
grande parte dos deficientes sente diariamente. A questão da deficiência
em nosso país é uma questão de democracia e direitos,
é uma questão de cidadania, é uma questão social.
Ainda reivindicamos ser uma questão social. Precisamos que descubram
nosso campo de concentração.
A situação limite do deficiente, onde a complexidade dos
problemas sociais se concentra ao máximo, pode mostrar suas características
eminentemente sociais. A construção da cidadania do deficiente
é uma batalha quotidiana, o acesso aos direitos civis, políticos,
sociais e coletivos, direito a saúde, educação, trabalho,
cultura, lazer, é uma exacerbação das dificuldades
dos outros cidadãos.
Conquistas de direitos, responsabilidades do Estado, papel da sociedade,
intervenção com resultados a longo prazo são pontos
cruciais da questão do deficiente, problemas comuns na nossa democracia
por construir, mas acrescentemos a eles o preconceito, a discriminação,
a marginalização e podemos perceber que e a compreensão
do relacionamento entre diferença e igualdade, ponto primordial
da questão da deficiência, é também chave na
construção da democracia.
Porque o que o deficiente quer é o direito à igualdade. Não
o direito de ser igual, mas a possibilidade de, sendo diferente, ter acesso
aos mesmos direitos. Ter respeitada sua diversidade, o conteúdo
da sua competência e não a medida da sua eficiência,
ter a marca do humano sobressaindo como possibilidade de sua diversidade.
Diariamente o deficiente tem desrespeitados seus direitos básicos.
Construí-los no entanto é simples. Não são
necessários nem bilhões de dólares de investimento,
nem inovações tecnológicas difíceis de alcançar,
nem grandes obras, nem mesmo reformas profundas ou legislações
básicas. É preciso vencer a barreira do preconceito e do
desconhecimento. O direito às compensações vem sendo
construído nos países do Primeiro Mundo. O princípio
de integração que prega a possibilidade e o direito de o
deficiente viver inserido em nossa sociedade é um facilitador na
medida que repudia qualquer forma de excepcionalidade, tanto aquela que
se grega mantendo o deficiente longe quanto aquela que superprotege tendo
o deficiente diferente. A integração, impondo a todos nos
o desafio do convívio dos diferentes, permite construir os mecanismos
da igualdade através da educação especial da reabilitação,
das complementações tecnológicas, da formação
e inserção profissional adequadas, do esporte adaptado e
inventa formas de ir descobrindo a democracia e a igualdade.
Existe um conluio secreto entre sociedade e Estado em nosso país
em relação à questão do deficiente.
Esse acordo começa com a manutenção do assistencialismo
e do paternalismo, passa pelas falsas políticas de participação
e se completa quando entende a deficiência e aceita a cidadania incompleta
dos diferentes.
É preciso romper essa barreira, vencer essa batalha, desenvolver
um estratégia para ganhar a guerra. Neste fim de século só
existe uma grande batalha para os que estão envolvidos com a questão
em nosso país: a conscientização do Estado e da Sociedade.
E pode existir um grande aliado: a informação.
Os centros de produção de conhecimento, em especial a universidade
como produtora e disseminadora de saber, podem ser a base para a construção
dessa aliança. Mas são os meio de comunicação,
divulgadores de conhecimento e formadores de opinião, que definição
a nossa vitória. Só com um novo pacto, com o engajamento
dos formadores de opinião, poderemos construir uma nova consciência
sobre a deficiência.
É preciso fazer conhecida a questão social da pessoa portadora
de decifiência, é preciso produzir e fazer circular informações,
mobilizar comunidades, chamar à participação, construir
políticas públicas.
Em nosso país reivindicamos ainda cidadania. Ainda temos campos
de concentração a serem abertos. A democracia precisa ser
construída. E o deficiente deve fazer parte dessa construção.
TEREZA COSTA D`AMARAL
Presidente do Instituto Brasileiro de Defesa dos
Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência e
Membro do Grupo de Defesa da Criança.