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Lidia Natalia Dobrianskyj
Weber
Os estudiosos do assunto afirmam que o apego esteja estabelecido por volta do 8° mês, e o sinal de que o apego está estabelecido é quando a criança começa a manifestar o medo a estranhos e medo da separação ou ansiedade de separação, quando a mãe (ou a principal figura de apego) sai de perto. Um fator que parece importante em relação à separação são as experiências prévias e o estabelecimento da relação anterior à separação. |
Kitzinger compara o contato maternal em diversas culturas e fala da relação mãe-bebê e da importância do contato físico e visual dos dois parceiros para o estabelecimento afetivo. O autor fala que existe uma certa aprendizagem e uma parte instintiva do amor maternal, mas ressalta que todo comportamento depende de fatores tanto orgânicos como ambientais. Kitzinger escreve que existem duas fases na aprendizagem de como ser mãe: uma na infância e juventude da mulher e outra durante a sua gestação. Observa que a tecnologia tem prejudicado o relacionamento inicial da mãe com o bebê, pois na maternidade eles ficam longe um do outro.
Badinter escreveu um livro polêmico sobre o amor maternal em relação a uma visão histórica do ocidente. Os costumes, e consequentemente, o modo de encarar os filhos, mudou muito desde a idade média, e houve mesmo uma evolução na história dos sentimentos. Relata que a importância que damos à criança e à infância nos idas de hoje não existia na idade média e mesmo cerca de dois séculos após era muito diferente dos dias atuais. Essas questões eram fortemente influenciadas por questões econômicas e principalmente, religiosas. Assim, nessa época, as amas-de-leite ganharam um lugar importante, se bem que não tinha a menor importância a escolha da ama-de-leite - não existiam qualidades imprescindíveis. A partir do século XIX, do nascimento da família moderna, da emancipação feminina, de Rousseau, de Napoleão, etc.., essa imagem mudou, surgindo a mãe dedicada e, a mulher sem filhos não era vista com bons olhos.
Baseada nesses fatos, Badinter não acredita em "instinto maternal", nem em "voz do sangue", apesar de acreditar em "amor maternal". Ela enfatiza que embora não se possa reduzir o amor à aprendizagem, recusa-se à identificar a mulher à mãe. O que conta é sua história individual, ou seja, de acordo com seus desejos e frustrações, a mulher terá mais ou menos vontade de cuidar de seu filho e terá mais ou menos facilidade também. Aqui há um encontro com o que escreve Kitzinger quando refere-se a duas fases na aprendizagem de ser mãe: a infância e a juventude da mulher e a sua gestação.
Este é um assunto que me sempre me pareceu fascinante e complexo, e merece ainda muitos estudos a respeito para se poder chegar à algumas generalizações. Talvez parafraseando Sheakespeare, possa ser dito que "existem muito mais variáveis sobre esse assunto do que possa imaginar a vã filosofia da maioria dos homens".
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Diná, é o que se pode dizer de uma pessoa esforçada, de uma trabalhadora dedicada, não têm parentes por perto para olhar as crianças enquanto sai para o trabalho, como muitas mães. Ela deixa, então, seus filhos de quatro e seis anos trancados em casa. Coloca toda a comida que eles precisam ao alcance e esconde tudo o que poderia trazer perigo como remédios, facas, vidros, etc. Explica que seus filhos são muito quietos, "bonzinhos mesmo'". Antes, deixava-os com uma senhora que cuidava também de outras crianças mas, a menina (mais velha) não gostava da mesma e reclamava estar sendo constantemente agredida pelos meninos. Conta que lhe "cortava o coração" ver acara de tristeza da filha. '.....só baixava a cabeça e não falava com ninguém". Conseguiu vaga numa creche mas, na primeira semana o menino voltou "todo mordido que dava dó de olhar", não disse nada na hora, estava "passada". Saindo dali botou a boca no mundo, foi parar num jornal que se "interessou muito", noticiando todos os dias o caso. As outras mães se revoltaram, exigiam a saída do "mordedor" (de três anos) da creche pois não era a primeira vez que ele mordia... Faz dois anos que isso aconteceu. Ninguém, além de Diná, se recorda disso. A partir daí as crianças ficam em casa, primeiro com algumas meninas de 12, 13 anos que não deram certo e depois sozinhas. |
Diná afirma se sentir mais aliviada em manter os filhos trancados em casa ao invés de buscar outra creche depois que perdeu a confiança naquela. Surgem aqui algumas questões: A creche é um bom lugar para uma criança se desenvolver? Qual o melhor ambiente para o seu filhos pequenos enquanto você trabalha?
Um lar continua seno o melhor lugar para uma criança se desenvolver. Mas um lar, mais do que um teto para se colocar debaixo, significa relação, troca de afeto entre pais-filhos-irmãos. Uma criança pequena que fica o dia todo, ou mesmo parte deste, sem um adulto por perto está abandonada dentre de sua própria casa. A creche se mostra então a melhor solução para garantir a proteção que toda criança necessita, desde que família e creche sejam aliadas em benefício da criança. Entende-se disso que cada uma deve cumprir a sua parte, sem delegar ou aceitar fazer o papel da outra, ou seja, a educação, a transmissão dos códigos de valores morais e culturais deve continuar sendo de responsabilidade da família e esta deve manter uma estreita relação com a creche, um contato que vá além do deixar a criança na porta e recuperá-la no final do período. Através da troca de informações, o desempenho e manutenção dos papéis de cada um (pais e creche), estarão sendo facilitados e mantidos, e a criança em melhores mãos.
"Uma criança não existe sozinha"... A criança é o resultado da comunicação que estabelece com os pais, da forma como eles a tratam".
E o que é que as crianças já nascem sabendo, à luz dos últimos avanços da pediatria?
O bebê carrega uma determinada bagagem genética que lhe oferece pré-condições para compreender o universo e se relacionar de forma inteligente com os que estão a sua volta. Exemplos: uma criança de 3 meses de idade prefere a imagem do rosto humano, com olhos, boca, e nariz, a qualquer outra imagem. Realizamos experiências com fotografias em que montamos uma espécie de quebra-cabeça do roto da mãe, com o nariz no lugar dos olhos, os olhos no lugar da boca e a boca no lugar do nariz. A criança tem repulsa a essa montagem. Sabe-se também que o bebê tem prazer especial em escutar a voz feminina da mãe. Prefere os sons agudos aos graves. São competências inatas que depois serão trabalhadas na convivência entre a criança e os adultos que a ciência mais avançou nos últimos tempos.
Ou seja: de nada adianta ter apenas a bagagem genética se os pais não derem ao bebê uma vida digna e amorosa?
Exatamente. Os pais é que transportam o recém-nascido para o mundo. A mãe, com um simples olhar, pode mostrar ao filho que certas coisas devem ser feitas e outras não. Acreditava-se, até há pouco tempo, que o bebê não fosse capaz de interpretar a reação dos pais. Claro que ele é capaz. A mãe é seus primeiro espelho para o real, e o bebê tem noção exata disso logo nos primeiros dias de vida. O rosto da mãe é seu primeiro guia.
É o que ocorre quando uma criança cai no chão e, só depois de olhar para a mãe, sabe se deve chorar ou não?
Sim, e essa situação é um dos primeiros indícios de que o bebê está ingressando numa sociedade com certas regras culturais. A criança reage de acordo com a mãe, sua única referencia par ao que é bom ou ruim. Há uma experiência extraordinária, realizada por um colega nos Estados Unidos (para descrever a experiência o médico começa a engatinhar no carpete de seu consultório). Ele coloca o bebê em cima de um grande tabuleiro de damas e, na outra ponta, ao longe, um brinquedo para atraí-lo. O bebê engatinha pelas casas pretas-brancas até que, num certo instante, percebe que a textura do solo é diferente. Ele pára, assustado, com a sensação de estar diante de um precipício, e sua primeira reação é virar-se para a mãe. Se ela faz que "sim" com a cabeça a criança prossegue. Um olhar crispado, de temor, impele o bebê a virar-se e voltar atrás. Sem a mãe, ele não saberia o que fazer.
Há pais que gostam de conversar com o bebê quando ele ainda está na barriga da mãe. Isso funciona?
É uma situação um pouco mítica, sem magia que gostaríamos que tivesse, mas benéfica. Esse tipo de conversa permite aos pais, especialmente à mãe, um primeiro contato com o filho antes do nascimento. Ela prepara a troca que haverá no futuro. Isso é muito bom. Mas ainda não sabemos se o bebê, dentro do corpo da mãe, consegue absorver as informações que lhe são transmitidas e interpretá-las. Nossa única certeza é que a memória já funciona, o que é extraordinário.
A criança terá a capacidade de lembrar no futuro o que ouviu ainda no útero materno/
Em parte sim. Há uma experiência simples que costumo realizar com as futuras mamães. Preço a elas que, nas últimas semanas de gravidez, leiam a seus filhos sempre um mesmo texto, com a mesma entonação. Depois do nascimento, toda vez que a mãe relê ao filho esse texto, a criança reage. Se está mamando, ela começa a sugar com outro ritmo. Ou seja: de alguma forma o bebê trabalhou com sua memória. Se a memória existe, podemos supor que há muitas outras coisas que podem ser apreendidas pelo bebê antes do parto. Verificou-se que as crianças recém-nascidas desenvolvem alguns sentidos em especial: elas têm um olfato aguçado. Quando há uma separação entre a mãe e a criança, logo depois do parto, bastam 45 horas para que ela saiba distinguir o odor materno do das outras mulheres.
Pais nervosos, superexcitados, podem criar filhos com essas mesmas características?
Não necessariamente. A criança costuma identificar-se com os pais - mas não raro ela pode recusar a postura deles porque não está contente. Há mães que são muito nervosas e passam essa tensão ao bebê quando dão de mamar. O bebê pode simplesmente evitar o seio e dizer não rapidamente. Algumas delas fazem isso minutos depois de vir ao mundo, quando são levadas ao seio materno.
Em que instante da vida um bebê adquire as noções de física, de que um objeto é mais pesado do que outro, de que a lei da gravidade existe, de que tudo que sobe cai?
É uma aprendizagem progressiva. Na verdade, apenas aos 6 anos de idade uma criança saberá responder a uma pergunta como esta: "Por que as nuvens se mexem?" Antes desse período, ela simplesmente dirá: "Por que querem se mexer". A noção de que o vento sopra e como efeito disso as nuvens se movimentam só desponta na cabeça infantil depois dos 6 anos. Há etapas muito claras de aquisição de conhecimentos pelas crianças, mas para atingi-las é preciso dois pressupostos básicos: que as crianças forcem sua imaginação e que os pais entrem nesse circuito. Volto a repetir: a criança não existe em si mesma, mas é também o meio ambiente paterno que a cerca.
O que, por exemplo, é inconcebível ensinar a uma criança antes da hora?
O conceito de irreversibilidade, que é indispensável para compreender a morte. Apenas com 10 anos de idade uma criança compreende perfeitamente que há certas coisas que uma vez desaparecidas, jamais retornarão. Para que, então, tentar colocar essa idéia na cabeça de um garoto ou uma garota antes da hora? É um ilusão imaginar que se começarmos antes faremos o melhor.
Mas o senhor não acha justo que os pais sonhem com filhos quase perfeitos, que de certa forma serão aquilo que eles não puderam ou não conseguiram ser?
É legítimo, toda civilização tem o direito de buscar as melhores fórmulas para que seus filhos cresçam saudáveis, seja melhores intelectual e fisicamente. Note que, por conta do avanço no campo das vitaminas e da alimentação, as crianças têm uma estatura média mais alta do que no passado, as meninas têm menstruação mais cedo. São avanços da ciência, positivos, mas, antes de se preocupar com filhos perfeitos, os pais deveriam é evitar o mau relacionamento com as crianças, o que irá resultar em futuros adultos esquizofrênicos, depressivos. Basta sonhar com crianças normais - e não com prêmios Nobel em potencial.
Chira, S. (1998). A mother's place. New York: Harper Collins Publishers.
Davis, L. (1997). Becoming the parent you want to be. New York: Broadway Books.
Otta, Em. (1994). O sorriso e seus significados. Petrópolis: Vozes.
Papalia, D.E. & Olds, S.W. (1981).
O mundo da criança. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil.