Boletim informativo do PROJETO CRIANÇA: Desenvolvimento, educação e Cidadania
Dezembro 1998      -   Ano 1, Nº 3
Natal e o Mundo Infantil
 
Infância 
 
  

Um gosto de amora 
Comida com sol. A  
Vida chamava-se "agora". 

(Guilherme de Almeida)

Editorial - Chegamos ao final do ano... dezembro.... tempos de festas, Natal, preparação das resoluções para o Ano Novo..., a montanha de brinquedos que nossos filhos querem ganhar, os Natais sem brinquedos e sem família de muitas crianças institucionalizadas, quase final de século.... No mês passado, a questão da adoção no Brasil (o meu grande tema de interesse) teve repercussões interessantes: A revista Isto É publicou uma importante reportagem sobre o caso de destituições arbitrárias de pátrio poder em Jundiaí; a revista Crescer em Família realizou uma comovente reportagem sobre a adoção de criança com AIDS e a revista Marie Claire elaborou uma belíssima matéria sobre a importância das adoções necessárias. Realizei um workshop sobre Adoção na Universidade Federal do Espírito Santo (Vitória) no final de novembro e, ao final da reunião, vejam só...., grupo de pessoas lançou a primeira pedra para a formação de um novo grupo de Apoio à Adoção na cidade de Vitória e cidades vizinhas! 
Muitos temas interessante para se falar e para se escrever. Não podemos deixar de falar que o dia do lançamento deste número do boletim Ciranda de criança, 10 de dezembro, comemora-se 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (seu principal redator foi um brasileiro de muito prestígio: Austregésilo Athayde. Também é bom falar que nem tudo o que proclamava a Declaração tornou-se realidade. Não se faz justiça nem se proporciona igualdade somente com papéis e decretos e leis... nós sabemos disso. A promoção da consciência social é um trabalho muito mais árduo.... e longo.... Todos nós podemos fazer alguma coisa nesse sentido, mesmo que ela seja um pequenino grão de areia no meio do deserto. É preciso acreditar que nós seres humanos, dotados de consciência moral, de livre arbítrio e de emoções, sejamos capazes de compreender integralmente os artigos 1º e 2º da Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada em 1948: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem comportar-se com espírito de fraternidade".

Desejo a todos vocês, meus amigos, um Natal repleto de tanto amor e carinho que vocês possam dividir com muitas pessoas, e um Ano Novo com muitos acontecimentos maravilhosos, daqueles que fazem a gente ter vontade de sair cantando no meio da rua! Abraços apertados,

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber
 

Brincadeira - É coisa séria 

Brincando, a criança aprende coisas que a ajudarão pelo resto da vida

Os pais querem criar bem os filhos e fazem de tudo para ajudar no desenvolvimento de sua linguagem e de suas habilidades motoras. Curiosamente, nem tantos se preocupam com o que a criança faz de mais importante na vida: brincar. Através da brincadeira, ela começa a aprender como o mundo funciona, o que pode e o que não pode ser feito. Empilhando e encaixando peças, ela adquire noções espaciais e faz as primeiras tentativas de organização do mundo. Quando produz sons batendo objetos, desenvolve conexões mentais e corporais que vão ajudá-la a falar e a andar. Repetindo brincadeiras à exaustão, digere as emoções, confirma e consolida um aprendizado. Jogando com os outros, começa a perceber que existem regras, sorte, possibilidades e conhece o valor da perseverança. A criança brinca instintivamente para descobrir o mundo e se ajustar a ele. Aos adultos cabe o desafio de não atrapalhar esse desenvolvimento, estimulando a brincadeira e interferindo o menos possível.

Um dos valores mais importantes que a criança aprende brincando é que, quando perdemos, o mundo não acaba. Se ela perde o jogo, pode ganhar na próxima vez, ou na seguinte. Para isso, os pais não devem passar aos seus filhos a impressão de que o mais importante é vencer. Em vez disso, convém enfatizar a diversão. As crianças precisam entender que perder não é sinônimo de inferioridade, da mesma forma que ganhar não demonstra superioridade. A criança começa a brincar antes mesmo de poder sentar ou engatinhar. Já aos 2 meses, diverte-se com as cócegas e risadas dadas pelos pais junto ao berço. A brincadeira é tão importante para as crianças que a psicologia a utiliza até mesmo como forma de tratamento. É a ludoterapia. "Brincar é o principal instrumento para a criança construir a própria individualidade", afirma a psicanalista mineira Sandra Kruel.

Para as crianças, é importante que os pais se interessem pelas suas brincadeiras, desde que se adaptem às regras. Não vale sentar no chão com a criança e decidir como as coisas devem funcionar. "Se o pai se dispõe a brincar, tem de dar espaço para a criança escolher como montar a brincadeira", afirma Sandra Kruel. Outra participação importante dos pais é na compra dos brinquedos. É claro que é um prazer poder chegar em casa com a última novidade da loja de brinquedos embaixo do braço, aquele carrinho cheio de luzes e sons ou a boneca da moda. Entregar um objeto caro assim na mão da criança não quer dizer, necessariamente, mais diversão ou melhor estímulo. Seu filho pode, inclusive, prestar mais atenção no papel do embrulho ou na caixa do presente. "O que tem valor para a criança pequena não é o mais sofisticado, e sim o que exige mais sua participação e lhe permite inventar", diz Sandra.

Filme Recomendado
A Felicidade Não se Compra (It's a wonderful life)
EUA. Produção e Direção: Frank Capra, com James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Henry Travers e Thomas Mitchell.
 
A vivacidade, o humor e o otimismo imortal do diretor Frank Capra nunca foram mais irresistíveis do que nesse eterno clássico sobre um desesperado homem de família que é salvo do suicídio por um velho anjo da guarda tentando ganhar suas asas. Uma tradição do feriado americano, esse emocionante e espirituoso conto ofereceu à James Stewart um dos seus mais queridos papéis, e retratou memoráveis performances como a de Donna Reed, Lionel Barrymore e Thomas Mitchell.
É um filme imperdível para ser visto na época de Natal e em qualquer época...
 
 
Convenções não eliminam abusos
 Fernando Rossetti - da Reportagem Local - Folha de São Paulo de 3 de dezembro de 1998 - Caderno Especial sobre Direitos Humanos
 
O universo das crianças testemunha um dos maiores paradoxos dos direitos humanos. É uma das áreas mais regulamentadas e ao mesmo tempo apresenta alguns dos piores indicadores. 

O Brasil é uma espécie de símbolo internacional desse paradoxo. Incorporou na Constituição de 1988 os princípios sobre a infância que seriam internacionalizados só um ano mais tarde, com a aprovação da Convenção sobre Direitos da Criança pelas Nações Unidas. 
 

Em 1990, o Brasil também sancionou o polêmico - e avançado - Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que inspirou leis nessa área em 16 países latino-americanos. 

Apesar disso, os brasileiros apresentam índices de mortalidade infantil comparáveis aos de países africanos (de cada mil nascidos, 52 morrem antes de completar 5 anos de idade). Em 1996, havia 3,8 milhões de crianças entre 5 e 14 anos no mercado de trabalho, segundo o IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
"Somos vistos no plano internacional como o país do Estatuto e como o país do extermínio de crianças", define Antonio Carlos Gomes da Costa, um dos mentores do ECA e consultor de boa parte do que se faz nessa área no Brasil.

Mas a situação não é muito diferente no conjunto dos países do mundo. Já em 1924, quando a idéia de direitos humanos ainda era incipiente, a Liga das Nações aprovou em Genebra a Declaração dos Direitos das Crianças.

A Declaração Universal também tratou do tema em 1948. Em 1959, a Assembléia das Nações Unidas aprovou nova declaração específica para crianças - fixando, por exemplo, "o direito de crescer e desenvolver-se com saúde".

É significativo que, 40 anos depois desta declaração, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) tenha escolhido como tema de seu relatório anual (1998) a nutrição. Alguns números:

- 12 milhões de crianças com menos de 5 anos morrem por ano em países em desenvolvimento;

- 55% das mortes de crianças se deve à desnutrição;

- 100 milhões de crianças têm o sistema imunológico debilitado por desnutrição;

- 17% de todos os bebês do planeta nascem com menos de 2,5 kg.

Em 1979 ocorreu outro marco: o Ano Internacional da Criança. Foi quando se decidiu começar a elaborar a convenção - um tipo de documento internacional que, depois de aprovado tem mais força do que as declarações.

Essa convenção tem quatro princípios gerais: a não discriminação (visando a igualdade de oportunidades); o interesse da criança (que deve nortear as políticas públicas); o direito à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento (o que envolve de moradia a educação); e o respeito à opinião da criança (conceito que define a criança como um ser diferente do adulto, e não Como um "adulto menor").

O fato é que o desrespeito a esses princípios tem correspondência direta com a pobreza do país. E isso não se muda só com convenções.

 
 

ÁRVORE DE NATAL
"Queremos neste Natal armar uma árvore dentro de nossos corações e nela pendurar, em vez de presentes, os nomes de todos os nossos amigos. Os amigos de longe e de perto. Os antigos e os recentes. Os que vemos cada dia e os que raramente encontramos. Os sempre lembrados. Os que às vezes ficam esquecidos. Os constantes e os intermitentes. Os dos dias difíceis e os das horas alegres. Os que sem sentir, causaram mágoas ou sem querer foram magoados. Aqueles a quem conhecemos profundamente e aqueles de quem são conhecidas apenas aparências. Os que pouco nos devem e aqueles a quem muito devemos. Os que aprenderam alguma coisa conosco e aqueles que ensinaram ou trabalharam para tanto. Os nossos amigos jovens e os amigos não tão jovens. As crianças, amigas sempre queridas. As mães nas labutas intermináveis da vida. Nossos amigos importantes. Os nomes de todos os que já passaram pela vida. Os que nos admiram e estimam sem sabermos. E os que nós amamos estimamos sem lhes dar a entender. Queremos, neste Natal, armar uma árvore de raízes muito profundas para que os nomes nunca mais sejam arrancados de nossas vidas. Uma árvore frondosa, de tamanho infinito, com ramos muito extensos para que novos amigos, vindos de todas as partes, possam juntar-se aos já existentes. E assim, nas lutas de cada dia, teremos sempre importantes pontos de apoio".

Erik, Tatiana, Lidia e Marcus

   

Ciranda de Crianças é um boletim informativo mensal do Projeto Criança: desenvolvimento, educação e cidadania. Este Boletim está sendo inicialmente enviado pela Internet. O Projeto Criança está sendo desenvolvido como um projeto de extensão do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná, coordenado por Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, que tem como objetivo principal colocar o conhecimento psicológico a respeito de crianças em geral a disposição da comunidade com o objetivo de prevenção. O objetivo será desenvolvido através de publicações ao público, palestras, cursos, consultorias e ações interdisciplinares junto à população, sendo que o enfoque principal será o desenvolvimento infantil (a descoberta da infância; diferenças culturais; estimulação); a educação infantil (ênfase na prevenção da punição física e violência doméstica) e a cidadania (direitos da criança, especialmente o direito à viver em família e em comunidade).

Correspondência: Universidade Federal do Paraná - Departamento de Psicologia - Profª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber - Praça Santos Andrade, 50/1º andar - Cep 80020-300 Curitiba - PR - Tel: (041)310-2625; (041)975-9369; Fax: (041) 243-0372

 
 

Correspondência: Universidade Federal do Paraná - Departamento de Psicologia - Profª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber - Praça Santos Andrade, 50/1º andar - Cep 80020-300 Curitiba - PR - Tel: (041)310-2625; (041)975-9369; Fax: (041) 243-0372
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