Boletim informativo do PROJETO CRIANÇA: Desenvolvimento, educação e Cidadania
Novembro 1998      -   Ano 1, Nº 2
Infância
Um gosto de amora
Comida com sol. A
Vida chamava-se "agora".
(Guilherme de Almeida
 
Editorial
Uma das questões mais polêmicas sobre a educação dos filhos diz respeito à punição física. A grande maioria dos adultos de hoje foi educada com surras e tapas e, com facilidade, repete o mesmo tipo de comportamento com seus filhos. Este tema surge em quase 100% das palestras que tenho ministrado sobre desenvolvimento e educação infantil e, surpreendentemente, a grande maioria dos adultos tem absoluta certeza de que "uns bons tapas não fazem mal nenhum" ou que um "psicotapa" tem a capacidade mágica de modificar comportamentos. As pessoas não admitem que, embora um tapa e um espancamento sejam diferentes, o princípio que rege os dois tipos de atitude é exatamente o mesmo: utilizar a força e o poder.  Será que ainda atualmente existe dificuldade em aceitarmos que um filho não é uma propriedade de seus pais? É difícil entendermos que os adultos batem nos filhos simplesmente porque estão sentindo raiva? Por que não compreendemos que ao bater não se está ensinando o comportamento correto para uma criança? São questões essenciais para os violentos dias atuais e pretendemos abordar este tema muitas vezes.  
Lidia Weber
Criança que apanha pode ficar anti-social - Folha de São Paulo
 

Bater em crianças malcriadas pode resolver o problema no momento, mas é a melhor maneira de produzir monstrinhos no futuro.

Pesquisa publicada na "Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine", editada pela Associação Médica Americana, revelou aumento do "comportamento anti-social", editada pela Associação Médica Americana, revelou aumento do "comportamento anti-social" em crianças de 6 a 9 anos que apanharam da mãe pelo menos uma vez na semana anterior a uma entrevista com psicólogos.

O "comportamento anti-social" maior foi reportado dois anos após a entrevista, e o aumento foi comum a crianças de diferentes classes, raças e sexos. Pesquisa ouviu 807 mães e seus filhos.

"Quanto mais freqüentemente uma mãe batia em sua criança na semana anterior ao estudo, maior era o índice de comportamento anti-social da criança naquele ano e dois anos depois", diz Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, em Durham.

O estudo mostrou que 44% das mães tinham batido nos filhos na semana anterior ao estudo. Foram expurgados das estatísticas fatores que poderiam ser usados para interpretações diferentes - como raça, classe e método de criação.

Para o estudo, mesmo em famílias que mostravam mais atenção pelas crianças, o resultados indicaram o mesmo papel do castigo como um indicador de futuro comportamento anti-social.

 
Filme Recomendado
MARCAS DO SILÊNCIO
EUA, 1996. Jennifer JasonLuigh; Christina Ricci; Jena Malone. Direção Angelica Huston
Um filme comovente, baseado em fatos reais, sobre maus tratos físicos cometidos contra uma menina e a emissão de sua mãe, que fechava os olhos para tentar salvar o casamento.
 
Punição é uma solução?
 Lidia Natalia Dobrianskyj Weber 
 

Há apenas algumas décadas, a punição não era questionada como uma alternativa para a educação infantil. Uma "boa surra" significava a preocupação dos pais em dar uma "boa educação" aos seus filhos. Hoje, com a divulgação de muitas informações psicológicas sobre o assunto, alguns pais passaram exatamente ao lado oposto, ou seja, preferem dar longas explicações para seus filho (ou "sermões" segundo a denominação infantil) quando estes agem de maneira inadequada. Fazer com que uma criança compreenda que agiu "de modo errado" é uma atitude correta, mas há pais que extrapolam! Algumas vezes, uma criança com pouco mais de um ano de idade é obrigada a ouvir, entediada, uma imensa lista de "explicações" de como ela agiu de maneira errada quando quebrou o vaso de violetas ao correr desajeitadamente atrás do gado da vizinha...

Por outro lado, quando alguém tenta acertadamente conversar com uma criança de mais idade, pode ouvir de pessoas mais idosas: "no meu tempo não era assim... uns bons tapas resolveriam o problema". Na verdade, temos que considerar com cuidado as pessoas que falam as coisas com muita certeza. Não há dúvida de que "no tempo delas" não era assim, pois antigamente ninguém se perguntava como uma criança deveria ser educada - era um processo mais ou menos natural. Porém, e felizmente, o mundo evoluiu, fazendo com que ocorressem transformações desde o aspecto econômico até o social, o qual inclui também a educação infantil.

Com o início dos experimentos de psicologia feitos em laboratório, tendo como sujeitos animais inferiores, pôde-se comprovar de maneira simples e segura que a punição não é tão eficiente quando parece ser. Desta forma, se condicionamos a um rato branco a pressionar uma alavanca dando-lhe água como recompensa e, em seguida, o punimos com um pequeno choque elétrico após cada resposta, observamos que após cerca de 3 ou 4 choques rápidos o animal pára de pressionar a alavanca e permanece quieto em algum canto da caixa experimental. Contudo, após alguns minutos, o rato volta a pressionar a alavanca e a receber água, do mesmo modo que fazia antes dos choques e com a mesma freqüência. A punição não foi eficaz para eliminar totalmente este comportamento do repertório do rato.

Podemos, então, chegar a algumas conclusões interessantes com este experimento simples e facilmente receptível. A punição geralmente funciona imediatamente mas por pouco tempo, pois após a passagem de apenas alguns minutos o rato inicia novamente o mesmo comportamento que foi punido. Você pode pensar que crianças são bem diferentes de ratos brancos, e tem toda razão, mas o princípio comportamental subjacente é equivalente. Uma surra pode ter um efeito imediato, mas a longo prazo a criança voltará a ter o mesmo comportamento anterior. Por exemplo: uma criança alaga o banheiro porque está brincando de "guerra marítima"; recebe algum tipo de castigo físico e, consequentemente, permanece quieta por algum tempo, ou por alguns dias. Porém, se o prazer que ela sentiu em alagar o banheiro foi maior do que a dor do castigo, ela provavelmente repetirá tal brincadeira.

É claro que ninguém vai sugerir que se dê uma surra que deixe a criança quebrada! Nesta situação, podem e devem entrar as "explicações", pois uma criança que tem imaginação e criatividade para brincar de "guerra marítima" também tem capacidade suficiente para compreender por que não deve deixar o banheiro alagado. Uma conversa funciona principalmente se a criança faz alguma coisa de errado pela primeira vez: ela pode simplesmente não saber ou não ter tomado consciência de que tal comportamento é inadequado.

Na verdade, muitos pais preferem a surra porque é muito mais fácil para eles, fura menos tempo do que uma conversa e a criança para imediatamente de agir de maneira errada, pois geralmente o choro e a dor são incompatíveis com quaisquer outra atividades. Porém, já vimos que o fato da criança parar de fazer a coisa errada, ocorre ilusoriamente somente por algum tempo. Após um tempo que varia em função da intensidade da punição, ou simplesmente quando a pessoa que a puniu não estiver por perto, a criança poderá fazer tudo novamente.

Outros argumentos contra a punição mostram que ela pode trazer conseqüências bem desastrosas para a criança. O castigo físico provoca na criança o que chamamos de "respostas emocionais", tais como o medo, choro e ansiedade, as quais podem aparecer em outras situações que não a de punição. Se o castigo físico for muito intenso e freqüente, estas respostas emocionais podem vir a afazer parte do comportamento habitual dos indivíduos, caracterizando crianças que conhecemos como "medrosas, ou "nervosas", ou que parecem "ter medo de tudo", que tem "receio de enfrentar autoridades", que "possuem pouca iniciativa", que "choram por qualquer coisa", etc. efeitos prejudiciais ocorrem também quando os critérios de "certo" e "errado" dos pais variam em função do seu humor: o que é "certo" hoje pode vir a ser "errado" amanhã quando o pai chegar em asa cansado e mal-humorado porque teve uma discussão com seu chefe... A coerência é fundamental"

Devemos lembrar principalmente que o fato de darmos um tapa ou uma surra em uma criança após ela ter feito um comportamento errado, não vai fazer com que o comportamento adequado aparece. A criança precisa ser ensina a fazer o comportamento certo, em não castigada porque fez o comportamento errado. A diferença é enorme! Além do que, já está mais do que provado que a punição não tem efeito a longo prazo, ou seja, aquele ato de punirmos vai reaparecer dia mais, dia menos, a menos que ensinemos à criança o ato correto.

Nem tantas surras e nem tanto "psicologismo" com as crianças. O ambiente familiar não deve ser um campo de batalhas (principalmente porque um dos lados é visivelmente mais fraco), nem um consultório de peritos em educação. O processo educacional deve ser algo de caráter preventivo e contínuo, e não apenas sermões e surras na hora das crises. Às vezes, basta sabermos que cada criança é única e cada situação é diferente e, portanto, não é possível ter um livro de "receitas" prontas que nos digam como agir em todas as condições.
 

Criança que apanha aprende menos - Folha de São Paulo 4/8/98
 

As crianças que raramente ou nunca são surradas têm melhor desempenho em alguns teste de inteligência do que as crianças que apanham freqüentemente, segundo um estudo norte-americano.

A explicação mais provável para essa constatação, segundo os autores da pesquisa, é que os pais que não fazem uso da violência se empenhem mais em dialogar e argumentar com seus filhos, estimulando a capacidade de aprender.

"Alguns pais pensam que isso é uma perda de tempo, mas pesquisas provam que essa interação verbal entre pais e filhos aumenta a capacidade cognitiva da criança", diz Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, nos EUA.

A equipe de Straus analisou mais de 900 crianças que, no início do estudo, em 1986, tinham entre 1 e 4 anos de idade.

Esse grupo foi submetido a duas séries de testes de capacidade cognitiva - a capacidade de aprender

e reconhecer coisas -, a primeira em 1986 e outra em 1990.

Os cientistas consideram fatores como presença do pai no lar, número de irmãos, tempo que a mãe passa com a criança, grupo étnico e idade. Eles observaram as mães com suas crianças e as questionaram sobre punições físicas.

As crianças que apanhavam mais tinham notas menores nos testes cognitivos, disse Straus no Congresso Mundial de Sociologia, em Montreal, no Canadá.

"A capacidade cognitiva das crianças raramente surradas aumentou, enquanto a capacidade das crianças freqüentemente surradas diminuiu", disse Straus.

Ele disse que isso não significa que as crianças surradas perderam capacidade. Elas apenas não progrediram como deveriam.

"As crianças que apanhavam não fiaram mais 'burras'. Elas simplesmente se atrasaram no desenvolvimento de suas capacidades cognitivas", afirmou Straus.

O pesquisador disse que, aparentemente, os pais que não batiam nas crianças tentavam controlar o comportamento dos filhos por meio de diálogo e de argumentos.

Straus disse que, apesar das surras serem criticadas nos EUA, a prática ainda é comum. "Se os pais conhecessem os riscos das surras, tenho certeza que milhões parariam", afirmou.

 
 

Livro Recomendado

Crianças vitimizadas:  

a síndrome do pequeno poder 

  

de Maria A.S. Azevedo e Viviane N. Guerra. São Paulo: Iglu, 1984.

O Remédio é brincar
Haim Grünspun - Psiquiatra
Entrevista da Revista veja em 24/5/1989

As críticas de Grünspun têm alvo certo: os pais que, na tentativa de oferecer a educação ideal a seus filhos, fazem todas as vontades das crianças, acham que uma palmadinha resolve qualquer birra e insistem em esconder dos filhos seus problemas de relacionamento. " Os pais com muita ansiedade, extremamente autoritários, exigentes ou superprotetores é que devem ser levados a um psicólogo", dispara.

Que tipo de prejuízos carrega a criança cuja mãe trabalha fora?

Haim Grünspun - O trabalho da mulher é uma realidade que não tem volta. Considero o primeiro ano de vida importantíssimo. Seria ótimo se a mãe conseguisse ficar pelo menos durante todo o primeiro ano com o bebê. Países como Polônia, União Soviética e Dinamarca, que querem aumentar a sua natalidade concedem por lei até dois anos de licença-maternidade. A nossa Constituição é a primeira que dá à criança o direito de ter a mãe com ela pelo menos durante quatro meses. Se somar as férias, já são cinco, quase meio ano. Isso já é bom.

As palmadas resolvem alguns casos de rebeldia?

Haim Grünspun - Os pais deveriam ser proibidos de levantar a mão para bater nos filhos. As mães às vezes se assustam e perguntam: " Mas nem um tapinha na bunda?" Não. As mães não corrigem um ato errado, quando batem. Elas batem porque estão nervosas e irritadas, e a criança percebe que é ela, criança, que está sendo agredida. Esse sentimento é de uma injustiça terrível. O castigo físico tem que ser eliminado da educação.

Então, o que resolve?

Haim Grünspun - Há vários castigos que são ótimos quando a criança quebra a disciplina. Deixar de assistir televisão, sentar em um canto para pensar no que fez, tirar a mesada. Esses são castigos de ótimos resultados.

Como lidar com as birras?

Haim Grünspun - A birra é um sentimento que a criança manifesta quando está frustrada. É como se ela tentasse se livrar dos males que o mundo obrigatoriamente vai lhe dar. Até os 3 anos e meio a birra é natural e não se deve fazer nada a não ser esperar a crise se esgotar.

 
 
Pense 20 vezes antes de bater
 
  1. Bater em alguém mais fraco é em si um ato de covardia.
  2. A palmada tende a ir perdendo seu efeito a longo prazo e a criança aos poucos teme menos a agressão física. A tendência dos pais é, então, bater mais e mais, buscando os efeitos que haviam conseguido anteriormente.
  3. A palmada não resolve os conflitos comuns às relações pais e filhos: muitas das crianças que apanham, mesmo sentindo-se magoadas e amedrontadas, enfrentam os pais dizendo que a "palmada não doeu", e o que era apenas um tapinha leve no bumbum, acaba virando uma tremenda surra.
  4. A palmada, aos poucos, pode afastar severamente pais e filhos, pois a agressão física, ao invés de fazer a criança pensar no que fez, desperta-lhe raiva contra aquele que a agrediu.
  5. Os danos emocionais impostos pela agressão física são geralmente mais duradouros e prejudiciais que a dor física.
  6. Bater pode ser uma experiência traumática para a criança não apenas pela dor física que impõe, mas principalmente porque coloca em risco a credibilidade depositada por ela nos pais, que é a base para sentir-se amparada e segura.
  7. A criança não pode se sentir segura se sua segurança depende de uma pessoa que se descontrola e para com a qual tem ressentimentos.
  8. A criança que apanha tende a se ver como alguém que não tem valor.
  9. Aos poucos a criança aprende a enganar e descobre várias maneiras de esconder suas atitudes com medo da punição.
  10. A criança pode aprender a mostrar remorso para diminuir sua punição, sem no entanto senti-lo realmente.
  11. Para a criança a palmada anula a sua conduta: é como se ela tivesse pago por seu erro, e por isso pensa que pode vir a cometê-lo de novo.
  12. A palmada não ensina à criança o que ela pode fazer, mas apenas o que não pode fazer, sem que saiba ao menos o motivo. A criança só acredita ter agido realmente errado quando alguém lhe explica o porquê e quando percebe que sua atitude afeta ou abala o outro.
  13. O medo da palmada pode impedir a criança de agir errado, mas não faz com que ela tenha vontade de agir certo.
  14. A palmada tem um caráter apenas punitivo, e não educativo; ela pode parecer o caminho mais fácil a ser seguido, porque aparentemente tem o efeito desejado pelos pais. É comum a criança inibir o comportamento indesejado por medo, e não pela convicção de que agiu de maneira inadequada.
  15. Muitas das crianças que apanham aprendem a adquirir aquilo que querem através da agressão física e, não raras vezes, apresentam na escola condutas agressivas para com os coleguinhas.
  16. Uma palmada, para um adulto, pode parecer inofensiva. Porém é importante saber que cada criança atribui um significado diferente ao fato de "levar umas palmadas", podendo tornar-se uma experiência marcante em sua vida futura. Além disso, independente da intensidade do bater, o ato continua sendo o mesmo: um ato de violência contra um ser desprotegido.
  17. Bater é uma forma de perpetuação da "cultura da violência" tão presente nas relações entre as pessoas nos dias atuais, pois ensina às crianças que os conflitos se resolvem por meio de agressão física.
  18. Bater nos filhos muitas vezes acaba por gerar nos pais fortes sentimentos de culpa, o que os leva a procurar compensar sua atitude posteriormente "afrouxando" aquilo que procuravam corrigir.
  19. Bater é um atestado de fracasso que os pais passam a si próprios (Zagury, 1985) porque demonstram para a criança que perderam o controle da situação.
  20. O sentido da justiça está em fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem. Quando nós adultos agimos de maneira inadequada, não esperamos punição. Esperamos sim que as pessoas nos compreendam e nos ajudem a agir de maneira certa.
 

Como você pode ter percebido existem muitas razões para não se bater numa criança. Agora imagine: se umas simples palmadas podem trazer conseqüências tão danosas, o que dizer daquelas surras que acabam virando uma verdadeira pancadaria?

Alguns autores citam como conseqüência da violência física contra criança e adolescente:

Mas se a palmada é um recurso tão inadequado para resolver os problemas que surgem diariamente na relação pais e filhos, o que podemos usar no lugar dela? Vamos conversar sobre isso.

(Texto retirado da cartilha "Viver sem violência", da Prefeitura Municipal de Florianópolis, elaborada por Sandra M. Barreto e Sandra C. da Silveira, em setembro de 1996)

Em muitos países é proibido castigar fisicamente crianças e jovens em instituições e colégios, mas até o momento, somente a legislação em seis países (Suécia, Finlândia, Noruega, Áustria, Chipre e Dinamarca) proíbe todo tipo de castigo físico a crianças infringido por seus pais e outras pessoas relacionadas com elas.


Correspondência: Universidade Federal do Paraná - Departamento de Psicologia - Profª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber - Praça Santos Andrade, 50/1º andar - Cep 80020-300 Curitiba - PR - Tel: (041)310-2625; (041)975-9369; Fax: (041) 243-0372
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