
Outubro é
conhecido como o "mês das crianças". Existem tantas coisas
boas para se falar sobre crianças... A sua pureza, o seu jeito carinhoso
ou rebelde, o fato de elas crescerem muito depressa, a maneira como rimos
dos seus aprendizados e como elas nos cativam... Infelizmente existe tanto
ainda para se falar sobre crianças como sujeitos de direito, principalmente
em nosso país: o trabalho infantil, a exploração sexual
infantil, a violência doméstica, o abandono, a institucionalização,
o direito de viver em família...
Tentaremos falar
de todos esses temas nos próximos números, mas hoje optamos
por falar de crianças "esquecidas" na instituições
e do seu desejo de ter uma família. E quando se fala disso é
inevitável falar em "adoções tardias" em alguns de
seus aspectos. No dia em que estava fechando este boletim, recebi um comovente
caso real escrito por Pedro Machado, Assistente Social da Comarca de Divinópolis
(MG). Leiam e verão se não tenho razão...
Um abraço curitibano para todos
os leitores e estou aguardando contribuições,
"Acho eu não vou ser adotado porque já passei da idade; só adotam até 14 anos"(Menino de 15 anos)
"Ainda não fui adotado porque sou nova aqui; tem que ficar bastante tempo" (Menina de 12 anos)
"Acho que vou ser adotada porque eu já tirei três fotos pra mostrar pro Juiz" (Menina de 13 anos)
"Eu vou ser adotada porque a gente tem fé em Deus e pode conseguir" (Menina de 15 anos)
"Acho que vou ser adotado sim, porque eu quero, pra mim ficar livre" (Menino de 9 anos)
"Eu acho que vou ser adotada porque é a terceira vez que a minha foto vai pra Itália e para os Estados Unidos" (Menina de 12 anos)
"Eu acho que vou ser adotada porque já está na hora de ir embora, meus pais já vão chegar..." (Menina de 10 anos)
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EUA,
1993. Richard Grenna, Rhea Pearlman, Tom Guiry
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Mesmo não tendo este trabalho um delineamento passível de generalização, podemos considerar que todos esse processo, que implica rupturas dolorosas e que se caracteriza por um período de intensa instabilidade, chamado estágio de convivência, requer um trabalho de acompanhamento técnico específico à família. Segundo as próprias famílias, este não deveria limitar ao período do estágio probatório como uma avaliação requerida pelo judiciário, mas ser um suporte técnico que atenda à necessidade da família.
De acordo com Brodzinsky (1990), uma boa porcentagem de crianças adotivas e seus pais experienciam como estressante o período que se segue após a colocação, o que aumenta a vulnerabilidade da criança para problemas emocionais e comportamentais. Segundo o autor, a idéia de que a adoção é estressante contraria vários mitos e estereótipos prevalentes sobre esta situação, que tem sido vista, tipicamente, como uma solução da sociedade para o estresse que envolve as três partes do triângulo da adoção.
O acompanhamento dos processos de adoção tardia, quando respeitadas todas as usas fases, pode representar uma solução terapêutica preventiva para a crise que pode instalar-se no momento da adoção. tal processo não é linear, homogêneo, desenrola-se de acordo com a dinâmica de cada grupo familiar. Requer muito trabalho de todos os envolvidos. Desde que o estabelecimento de regras seja simples e claro e as manifestações de agressividade, às vezes intensas do filho adotivo, sejam catalisadas, a experiência pode ser aproveitada por estas famílias como uma alavanca para o crescimento de todos os seus membros.
Texto retirado de: Vargas, M. M. (1998). Adoção tardia, da família sonhada à família possível. São Paulo: Casa do Psicólogo.
ADOÇÃO TARDIA:DA FAMÍLIA SONHADA À FAMÍLIA POSSÍVEL da psicóloga Marlizete M. Vargas.
Lançado em agosto pela Casa do Psicólogo.
mvargas@lexxa.com.br
Criamos um filho para entregá-lo a vida adulta, sadio, responsável e preparado intelectualmente. Se em troca disso recebermos afeto, gratidão e respeito, tanto melhor. Devemos porém ter a força de renunciar a essa recompensa da paternidade bem sucedida e nos concentrar em ajudar um jovem pelo qual assumimos a responsabilidade a não ser na vida um fracassado.
Quem adota uma criança já crescida por estar com alguma carência afetiva, tem todas as chances de encontrar uma fonte inesgotável de decepções. É preciso, em certos casos, olhar para nossos deveres e responsabilidades serenamente, e com firmeza.
Para isso devemos manter o apoio parental e principalmente tentar ganhar-lhe a confiança e a amizade de tal forma, que mesmo que não reconheça como tal, os tenha por aliados. Assim, ele estará seguro e apoiado para o estudo, a profissionalização e uma razoável integração na sociedade.
A adoção precoce e a tardia são ambas fontes de realização familiar. Para as duas é preciso ter um coração aberto e uma mão estendida. A diferença é que na adoção precoce prevalece o coração na tardia os braços abertos protetores e firmes. É o dever se antepondo ao amor. Tarefa não fácil para mas compensadora, fruto da vontade, experiência de vida e maturidade.
Texto retirado de: Andrei, D. (1997) Reflexões
sobre "adoção tardia". Boletim Terre des Hommes ,
Ano IX, no. 94, maio/97.
Muitas vezes, ao conversar com pessoas que tinham planos de adoção, perguntei se imaginavam adotar um bebê. Candidamente eles respondiam, "não, não é preciso que seja um recém-nascido; a criança pode ter até 6 meses". Pessoas que não podem gerar filhos biológicos, quase sempre imaginam adotar um bebê, para "poder cuidar desde pequenininho; dar mamadeira e trocar fraldas!" E, imaginam que uma criança "mais velha" seja um bebê de até três meses de idade....
(...)
No entanto, as experiências mostram que não é verdade que todas as adoções de crianças maiores sejam problemáticas, mas elas apresentam características especiais, pois, sem dúvida, são diferentes das adoções de bebês.
A principal diferença é que essa criança já possui um passado. E, geralmente, é um passado que contém cicatrizes. De qualquer forma, existiu uma outra relação anterior na vida dessa criança ou adolescente, mesmo que tenha sido uma não-relação, como ocorre com a vida em instituições. A principal questão para os pais, talvez seja, se essa criança conseguirá amá-los e se eles conseguirão amá-la. Já foi dito que, de maneira geral, a criança tem a capacidade de estabelecer vínculos afetivos de maneira mais fácil que os adultos. As crianças mesmo institucionalizadas estão com o seu amor latente... Para compreender e amar esta criança, deve-se ter em mente que não é possível apagar a sua história anterior e, certamente, proporcionar oportunidades para a criança de expressar as suas dores e tristezas, ou até raiva e sentimentos de perda. O maior medo de uma criança adotada tardiamente é "ser devolvida", é "voltar novamente para a instituição". Às vezes, essa criança pode ter tanto medo, que em vez de mostrar amor, ela pode fazer tudo ao contrário, pois de maneira não consciente ela pensa: "eu vou ser abandonada novamente, então é melhor não gostar deles".
Alguns depoimentos de filhos adotados com mais de seis anos de idade mostram sentimentos de medo e confusão: "Foi como se a minha vida tivesse virado de cabeça para baixo"; "Foi dramático, chocante, eram duas realidades bem diferentes"; "Eu fiquei assustada"; "Fiquei confusa, tive bastante medo".
Os pais adotivos devem estar preparados para estas reações, até mesmo certa hostilidade inicial, e serem tolerantes em relação a novos hábitos, costumes e sistemas de valores que a criança traz consigo. (...)
Na pesquisa que realizei com filhos adotivos, daqueles que foram adotados com mais de 6 anos, a maioria absoluta revelou que suas vidas melhoraram (93%): "Foi como ganhar na loto"; "Foi infinitamente melhor"; "Fui bem alimentada e pude estudar; "Tive maior estabilidade no emprego; meus pais incentivaram o diálogo"; "Tive pai e mãe".
Parece que, na adoção tardia, os pais devem ter uma capacidade grande de empatia, ou seja, de entender aquela história anterior do seu filho e devem ser também uma espécie de ancoradouro para que a criança ou o adolescente sinta que pode contar essa história, desabafar e até ter raiva dela. A capacidade de qualquer relacionamento familiar, de fato, parece não depender da história anterior dos protagonistas, da aparência física ou da idade, mas da verdadeira capacidade de construir o afeto, com base em trocas e doações.
Texto retirado de:
Weber, L.N.D. (1998). Laços de ternura: pesquisas
e histórias de adoção. Curitiba: Santa Mônica.
Ele nasceu em 1995, saudável, numa cidade próxima a Divinópolis, e lá vivia com seus pais. Antes de completar um ano foi internado no hospital São João de Deus, em Divinópolis, com traumatismo craniano e fraturas diversas por agressão do pai. Hoje tem comprometimento neurológico severo e total dependência. Tem acompanhamento da equipe técnica de estimulação do Instituto Helena Antipof.
Ao deixar o hospital, por razões óbvias, foi colocado pelo juízo da comarca de origem numa família substituta desta cidade, sob guarda, para fins de adoção.
Porém, a adoção não se consumou. Depois de um ano mais ou menos os guardiães o devolveram.
Melhor dizendo, os guardiãs procuraram um entidade de internação prolongada que solicitou a apresentação de Estudo Social, segundo eles mesmos disseram.
Como haviam desistido da adoção e desejavam internar Tainã, o juiz nos determinou a realização de estudo psicossocial com parecer nos autos. Foi assim que, como técnicos da equipe interdisciplinar do fórum da comarca de Divinópolis, conhecemos Tainã e passamos a fazer parte da história dele.
Os guardiães revelaram estabilidade sócio-econômicas. Portanto, o relatório do estudo que requeriam não atenderia ao interesse deles, uma vez que alegavam falta de recursos para atender as necessidades de Tainã. As condições sócio-econômicas eram as mesmas de quando requererão a guarda.
Como estavam firmemente decididos, não havia como tentar uma adaptação. Eles estavam sofrendo. Pareceu-nos que o indicado era refletir com eles, oferecendo ajuda no sofrimento e acolher a criança!
Entretanto, não dispúnhamos, como ainda não dispomos, de nenhum casal ou pessoa cadastrada, com disposição de adotar uma criança com mais de um ano, negra e com necessidades especiais! Tainã era uma criança dita inadotável! Triste, mas falível rótulo imprimido pela nossa onipotência, também falível, ainda bem!
Quem, onde estaria e como encontrar algum casal ou pessoa capaz de assumir a paternidade daquela criança com tão reduzidas chances de se tornar autônoma um dia? Seríamos capazes de encontrar uma alternativa para Tainã ou, no fim, o seu destino seria mesmo o orfanato? A segunda hipótese nos parecia a mais provável, infelizmente.
No dia de uma entrevista de prosseguimento, em que a guardiã relatou estar realmente decidida a devolver Tainã, ao deixar o trabalho, levei comigo a obrigação de encontrar uma saída, uma dose considerável de angústia e sentimento de impotência. A institucionalização parecia irremediável! Logo por nós que a combatemos.
Naquele mesmo dia, já a menos de um quarteirão da minha casa, Dona Benedita, que estava na porta da casa dela, parou-me para contar o quanto Gustavo, seu neto por adoção, cuja entrega foi feita por nós, estava bem. Alegre e falante como é, contou-me peripécias dele, falou da felicidade dos pais, das qualidades da Verônica, uma filha dela por adoção, já mocinha, e de seu trabalho como voluntária no hospital São João de Deus.
Por falar em trabalho voluntário no hospital, acrescentou que, certa vez, havia já algum tempo, conheceu no hospital, "um menino de nome... parece que Natan, de uma cidade vizinha, cujo pai o havia machucado muito..." que aquele menino era para ser filho dela, quando tivesse alta do hospital, mas.. "alguém chegou primeiro..."
Eu sabia que ela estava falando de Tainã. Nem sei descrever o que senti ao ouvir tão benditas palavras! Ela olhava o chão disfarçando a emoção, claro. Tentei dissimular a minha, como quem fala ou pensa que disfarça, perguntei se ela, de falto, adotaria uma criança com lesões neurológicas irreversíveis. Erguendo o olhar disse, efusiva:
Tenho para mim que não sou uma pessoa de muita fé, pelo menos, acho que não tenho tanta, em quantidade e tamanho como gostaria. Mas, mesmo imerecedor, pedi a Deus que me imortalizasse pelo menos ate o dia seguinte. Eu, como que, era portador do desejo de Dona Benedita e do destino de Tainã! Tudo dependia da notícia e da decisão do juiz. Era, entretanto, um esperança! Era, entretanto, uma esperança!
No dia seguinte contei os fatos aos meus colegas da equipe, para a Gláucia, assistente social e para a Rita, psicóloga, que estava no caso comigo. Juntos falamos como o promotor da infância e da juventude e opinamos pela oitiva de Dona Benedita e de seu Osmar, o marido dela, para maior compreensão das motivações e do conhecimento das condições da família.
Naquele mesmo dia em que livrei-me de minha imortalidade temporária, ao voltar do trabalho, pude falar com Dona Benedita que o Dr. Ulisses, o promotor de justiça, queria conhecê-la e ouvi-la no dia seguinte. Ao ouvir-me, disse ela:
Apesar da limitada capacidade de percepção, Tainã parecia sofrer. Estava tenso e desconfortável em nossos braços e, com o seu saber, assegurou-o de que sua mãe, seus novos pais, logo, logo, estariam com ele.
Dali a pouco ela e seu Osmar entraram na sala, não sem antes, ao vê-lo, exclamar emocionada:
Feito isto, a Rita continuou dirigindo-se a ele:
Tainã é meu vizinho, um bom vizinho! De vez em quando vou vê-lo, Dona Benedita me cobra. Sou meio padrinho dele.
Tainã não fala mas, no seu silêncio, me diz que Deus existe... Tomara que eu mereça!
Hoje sabemos que há uma criança a mesmo numa instituição, não tanto por mérito profissional nosso como 'técnicos judiciários, mas de Dona Benedita que, justamente naquele dia e hora, se ofereceu a ele através de mim.
Nossa alegria é de termos disso veículos deste encontro.
O dia de Dona Benedita é atarefado, ela não nega e nós testemunhamos. Mas, ela confia e Deus ajuda.
Tainã é feliz porque é amado por uma família cuja atitude anuncia que é possível uma família branca adotar uma criança não recém-nascida, de origem negra e com necessidades especiais, como tantas por aí afora.
Para muitos Dona Benedita vai de "louca" a "santa"! ela sorri e insiste que é a pessoa mais normal do mundo! Mas, para todos que a conhecem, louca ou santa, ela merece toda a estima e respeito possível!
Pela experiência que Tainã me fez vivenciar e por se dar a amar, como se dá por todos aqueles que o conhecem, chego a pensar nele como um pequeno missionário, cujo sermão é sua bem-aventurada existência e seu sorriso. Ah! Ia me esquecendo, Tainã está legalmente adotado e Dona Benedita orou pela paz da outra família!
O Projeto Criança está sendo desenvolvido como um projeto
de extensão do Departamento de Psicologia da
Universidade Federal do Paraná, coordenado por Lidia N.D. Weber,
que tem como objetivo principal colocar o
conhecimento psicológico a respeito de crianças em geral
a disposição da comunidade com o objetivo de
prevenção. O objetivo será desenvolvido através
de publicações ao público, palestras, cursos, consultorias
e
ações interdisciplinares junto à população,
sendo que o enfoque principal será o desenvolvimento infantil (a
descoberta da infância; diferenças culturais; estimulação);
a educação infantil (ênfase na prevenção
da punição
física e violência doméstica) e a cidadania (direitos
da criança, especialmente o direito à viver em família
e em
comunidade).
Correspondência:
Universidade Federal do Paraná - Departamento de Psicologia
Profª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber
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E-mail: lidiaw@uol.com.br
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