
Infância
Um gosto de amora
Comida com sol. A
Vida chamava-se "agora".
(Guilherme de Almeida)
EDITORIAL
Caros Amigos
Este boletim cibernético, CIRANDA DE CRIANÇA, faz parte das atividades de um projeto de extensão universitária - PROJETO CRIANÇA: DESENVOLVIMENTO, EDUCAÇÃO E CIDADANIA, o qual estou iniciando. Gostaria de ter a colaboração de todos vocês, com críticas, sugestões, escritos, poesias, filmes, fotos, experiências pessoais, e o que mais vocês quiserem. Este número "zero" é um número experimental e tem também o objetivo de comunicar que desde o dia 22/08/98 eu não sou mais a diretora do departamento científico do Projeto Recriar: Família e Adoção; por motivos pessoais, não faço mais parte desta associação. Informações sobre o Recriar podem ser obtidas pelo telefone (041) 252-5162, Rua Napoleão Lopes, 40/11 80530-090 Curitiba - PR. No entanto, o meu caminho de pesquisa e ação em prol do direito da criança de viver em família e em comunidade continua! Continuarei a trabalhar e estudar com as relações de famílias por adoção. Recentemente recebi, com alegria, o boletim eletrônica da amiga Gabriela Schreiner "Nas Janelas da Adoção", e vocês que estão nesta minha listagem, se quiserem receber este boletim, basta solicitar para gnschreiner@uol.com.br, e ela enviará para vocês com alegria. Em diversas comunicações públicas que tenho realizado nos últimos anos, as diferentes platéias têm mostrado grande necessidade de conhecer um pouco mais a fundo sobre os vários aspectos da infância, especialmente sobre o desenvolvimento e educação dessas criaturas maravilhosas que são as crianças. Desta forma, resolvi estender um pouco mais o meu caminho de luta e, especialmente, de prevenção. As notícias atuais sobre adolescentes infratores, sobre violência doméstica, sobre "limites e educação" são polêmicas e alarmantes e sinto as pessoas cada vez mais preocupadas com estes assuntos. Gostaria também, que vocês sugerissem questões para nosso encontros no cyberspace! Este primeiro boletim será temático, no qual será abordado um assunto extremamente interessante e polêmico, a "marginalidade". Esta não é a minha área de pesquisa e, portanto, apresento um texto somente reflexivo que escrevi há cerca de 10 anos, antes da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Revisei-o e percebi que a discussão continua em pauta. Com a palavra, temos a minha amiga, Dra. Paula Gomide, expert no assunto, e um poema de um grupo de meninos de rua de Curitiba, sobreviventes da nossa história. Desejo a todos um excelente feriado e não esqueçam da I Jornada Interdisciplinar de Adoção, que será realizada dia 12/09 em Campinas; a organização é da também amiga (é bom ter amigos!), psicóloga Marlizete Vargas - contatos no E-mail mvargas@lexxa.com.br.
Um grande abraço,
(...) É preciso reconhecer que o modelo institucional está falido. Como é possível educar, reeducar, reintegrar, sem que seja oferecidas condições mínimas para que esses processos educativos ocorram? Qual é a relação interpessoal necessária neste processo? Como é possível que um projeto de vida seja construído nestas condições? As pesquisas mostram que a aquisição e internalização de valores morais e a socialização necessitam da mediação do afeto para serem instalada no indivíduo, ou seja, sem afetividade mediando as relações entre as pessoas o processo de aprendizagem fica seriamente comprometido. Como é possível reproduzir-se em instituições esta condição básica, já que lá os funcionários tem compromisso temporário com a orientação dos internos e a permanência do próprio interno é temporária, assistemática e imprevisível?
(...) Como avaliar a que se propõe a Psicologia moderna enquanto área de conhecimento, ciência ou profissão comprometida com as transformações sociais necessárias? É possível que a Psicologia tenha alguma utilidade em um país subdesenvolvido? De que maneira poder-se-ia utilizar melhor o conhecimento teórico e prático fornecido por este campo do saber humano?
O processo pelo qual o rompimento com o elitismo do atendimento psicológico é feito não se dá sem traumas. Desenvolver técnicas apropriadas para o atendimento da população carente e marginalizada de uma nação configura-se num desafio. Creio, que não podemos ficar à margem do processo de desenvolvimento do país, nem como cidadãos, nem como profissionais da Psicologia. Mostrar-se neutro no contexto atual é compactuar com a miséria e com a desigualdade social a que estamos submetendo parte fundamental da sociedade brasileira. Colocar o produto de nossas pesquisas à disposição de toda a população, inclusive e principalmente da carente, enfrentar os desafios metodológicos que esta nova prática traz consigo, pode ser estimulante para alguns profissionais da área. Esta prática, poderá representar, também, um novo campo de atuação para os novos profissionais, onde não só privilegiados poderão utilizar-se dos serviços de Psicologia, mas todos aqueles que necessitarem, especialmente os que hoje desconhecem inteiramente as possibilidades de atendimento psicológico.
Trechos do livro MENOR INFRATOR: A CAMINHO DE UM NOVO TEMPO de Paula Inez Cunha Gomide. Curitiba: Juruá, 1990.
Algumas pessoas, ao lerem isso, podem estar pensando: "mas esses meninos são mesmo uns marginais desocupados e merecem isso mesmo". Se chamamos esses meninos de marginais por que a sociedade é tão condescendente com outros tipos de crimes, como desfalques, falsificações, sonegação de impostos, fraudes?! Este outro lado merece uma discussão mais amplas, e por isso, tentarei prender-me por ora, aos chamados crimes de rua, cometidos por indivíduos pobres. Talvez, esses garotos sejam mesmo o que nós conceituamos de "marginais", mas ninguém nasce infrator! Ninguém, ao nascer, tem o seu destino escrito nas estrelas, dizendo se será um médico, um trombadinha, um contrabandista de pedras preciosas, um pianista ou um fraudador do INSS. Os seres humanos não vêm prontos ao mundo, porém, existe maior ou menor probabilidade de comportarem-se honestamente (segundo alguns valores) em função dos ambientes a que foram expostos. Um marginal, infrator ou assassino, não nasce; é produzido pela sociedade.
Em uma sociedade que possui um sistema de controle estratificado, consumista e competitivo, que valoriza a aquisição de bens de qualquer forma, e que só fornece chances de sobrevivência digna aos mais aptos, bonitos, ricos e espertos, o comportamento desses "garotos marginais" pode ser analisado como adaptativo. Eles não têm muitas opções. Têm realmente poucas coisas que podem fazer senão furtar para viver e perambular pelas ruas. E quem chegar dizendo que com "esforço pessoas" e "trabalho honesto" se vence na vida, está falando da possibilidade disso acontecer com uma pessoas em um milhão! Desafiaria, se fosse possível, as pessoas que acreditam nessa tese, a despojar-se de todos os seus bens, sua educação, seus amigos, e morar por uns cinco anos em um meio onde vivem esses "jovens infratores" e em seu ambiente familiar) se é que possuem algum).
É muito mais fácil para nós, que estamos em uma situação privilegiada do ponto de vista econômico, cultural e intelectual, em relação à maioria dos brasileiros, dizer que "eles são marginais e merecem isso", ou então, não dizer nada, porque isso não está nos afetando diretamente. Esses jovens foram produzidos por uma sociedade injusta. Não estou aqui defendendo os infratores, mas tentando discutir e mostrar como um comportamento é produzido. Será correto culpar as próprias vítimas que o nosso sistema social produziu? Se invertermos a situação como indica Skinner (no livro Sobre o Behaviorismo), o fato torna-se mais esclarecedor, assim como salientou Samuel Butler, escritor e filósofo inglês do século 19, autor do romance satírico "Erewhon", considerado uma antiutopia. Eroewhon é a anagrama de "nowhere", que significa em inglês nenhum lugar. Segundo Butler, nesse lugar as pessoas eram, ao contrário do nosso mundo, censuradas e criticadas por seus defeitos físicos e não morais. Comparem-se duas pessoas, uma das quais foi mutilada por uma acidente; a outra, por uma história ambiental pregressa que a tornou preguiçosa e, quando criticada, mesquinha. Ambas causam grandes incômodos aos outros, mas uma morrerá como mártir e a outra como desprezível. Ou comparando-se duas crianças, uma aleijada pela poliomielite, a outra por uma família que a rejeitou e que vive nas ruas. Ambas ambas causam certo mal-estar, mas só uma delas é isenta de culpa. O que ocorre, e que a história de vida daquela considerada culpada não é tão visível como o defeito físico da outra, assim, é muito mais difícil identificarmos as variáveis das quais o seu comportamento é função.
É preciso mudar urgentemente o enfoque sobre a questão da marginalidade, e, consequentemente, sobre os direitos humanos. Temos que analisar, além das vítimas e/ou culpados, os sistemas sociais envolvidos. Será que a solução é colocar esses jovens em prisões ou reformatórios e fingir que o sistema vai mudar por si só? Não adianta tratar um sintoma sem investigar sua causa. Temos que mudar a sociedade de que produziu e continua produzindo o comportamento infrator das pessoas de todas as classes sociais. É preciso fazer algo mais do que usar arbitrariamente a violência física e a coerção sobre os indivíduos, ou utilizar conceitos abstratos como agente causais, rotulando-os de "desestruturados", "sociopatas", "gananciosos" ou com "personalidade desequilibrada". É necessário, antes de tudo, uma ação preventiva: não é simplesmente tratar mas não deixar acontecer. Se queremos eliminar, ou pelo menos diminuir os roubos e violências em todos os níveis, devemos ter como objetivo uma sociedade mais justa, uma sociedade que possibilite maior chance de vida para todos. Temos que pensar em transformar não a "mente" ou a "consciência" dos homens, mas pensar em uma ação conjunta de diversos setores da nossa sociedade, algo que possibilite a transformação do meio, das contingências envolvidas nas instituições sociais, no sistema econômico e político do país. Será impossível?
- Não podemos acreditar coisas impossíveis - disse Alice.
- Pois eu digo que você não tem ainda muita prática - disse a rainha -, porque às vezes tenho acreditado em até seis coisas impossíveis antes do desjejum".
Dimenstein, G. (1990). A guerra dos meninos: assassinatos de menores no Brasil. São Paulo: Brasiliense.
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Sotto Mayor Neto, O. (1997). Trabalho infantil. Revista Igualdade, 17, pp. 7-24.
CONHEÇA: CENTRO DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS SOBRE MENINOS E MENINAS DE RUA - CEP_RUA. Fundado em 1994 e coordenado pela Dra. Sílvia Helena Koller. Rua Ramiro Barcelos, 2600, sala 104 - 90035-003 Porto Alegre - RS - Tel: (051) 3309507; Fax (051) 3304797 E-mail: CEP_RUA@vortex.ufrgs.br