SOBRE UVAS, RAPOSAS E COMPUTADORES...


Uma raposa solitária. Um parreiral. Parreiras cobertas de frutos, com muitos cachos de uvas, cheios e maduros, prontos para comer. Porém, altas demais. Cansada pelas tentativas e paralisada frente ao desafio, exclamou: "-Ora, eu não quero mesmo essas uvas! Estão verdes, não prestam."

Há algo dentro de nós adultos que, com maior ou menor intensidade, e em não raras vezes do cotidiano nos transforma como que em raposa diante das uvas. Um bom exemplo deste comportamento é a relação da grande maioria dos adultos com o computador e a cultura da informática.

Digo adultos porque com as crianças a experiência tem se mostrado diferente. Basta contemplar a relação delas com os video games, os multimídias, etc.

Às vezes, críticos de um certo modismo criado pelo mercado da informática e céticos quanto a sua utilidade, chegamos a perceber a importância deste novo conhecimento e a exigência do mercado de apropriação desta cultura, pelo menos para garantir uma mínima e elementar competência profissional. Todavia, este mundo de bits e bytes, assusta!

Muitas vezes ignoramos todo o potencial de serviços, principalmente aqueles que são hoje alguns dos maiores desafios da sociedade brasileira: a informação e a articulação social na construção da democracia participativa.

A agilidade da comunicação, o acesso imediato a inúmeras fontes de dados com informações estratégicas e a articulação em rede com milhares de interlocutores simultaneamente - que faz diferença significativa na correlação de força política -, além do baixo custo operacional, são elementos a serem considerados neste novo instrumental de serviço.

O que isto pode ajudar no dia-a-dia do nosso trabalho? E na ação dos movimentos sociais e dos diversos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente, dos Conselhos Tutelares, da Assistência Social, da Educação, e de tantos segmentos da sociedade brasileira? Quando em momentos de avaliação e planejamento, se pensa em comunicação e articulação, as questões que sempre aparecem são: a falta de informações, os altos custos gráficos e de correios e telefones, as distâncias de um país continental, o alto custo das passagens e de hospedagens. Considerando estes limites e sem muitas perspectivas, os movimentos sociais continuam sem comunicação e desarticulados. Em tempos de revolução dos instrumentos comunicativos e de interatividade, com raras exceções, continuamos com estratégias e instrumentos de décadas passadas. Existem outras alternativas?

Nós, instituições inspiradoras e gestoras da REBIDIA, acreditamos que sim. Para tanto, é preciso fomentar, estimular, em nós adultos, a mesma atitude das crianças e adolescentes, de curiosidade, de investigação, de prazer e de desafio frente ao desconhecido. Vencendo os primeiros obstáculos descobriremos que sombras não são fantasmas e que fantasmas não existem! Boa sorte e boas descobertas! As uvas são alimentos saudáveis e deliciosos!

José Donisete P. Oliveira
Coordenador da AMEPPE - Regional Minas Gerais da Fundação Fé e Alegria do Brasil
Conselheiro do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente)