BOLETIM DA REBIDIA - ANO 2 N 8 - ABRIL DE 1998
http://www.rebidia.org.br - rebidia@rebidia.org.br Pastoral da Criança - AMEPPE - ESQUEL Correspondência: SAS Q6 BL K - Ed. Belvedere s/801 - Cep 70070-000 - Brasília - DF - Fax (061) 322-1063
REBIDIA: busca constante de políticas públicas para o bem comum A informação a serviço da vida e da esperança Neste ano o mundo todo por razões religiosas, éticas, políticas, comerciais e outras - se mobiliza pela garantia da educação como estratégia básica para o desenvolvimento das nações. Parece que finalmente o advento da globalização gerou um consenso: é preciso educar para a cidadania, para a solidariedade, para o convívio pacífico entre as pessoas e com a natureza.
| Neste contexto - e com a motivação que fundamentou
a sua criação há dois anos - a REBIDIA é o
instrumento para os agentes de promoção social que
precisam da informação para desenvolver com
criatividade e eficiência o seu importante trabalho
educativo. E é sobre trabalho que vamos conversar neste
boletim. Não o trabalho emancipador, potencializador da
capacidade humana, construtor de novas possibilidades,
mas o trabalho que oprime, compromete a formação,
atrapalha o desenvolvimen-to de quem o realiza e da
sociedade que o mantém: o trabalho infantil. As organizações que gerenciam a REBIDIA - Pastoral da Criança, Fundação Fé e Alegria do Brasil e Fundação Grupo Esquel - assumem também a Marcha Global contra o Trabalho Infantil de uma forma diferente pela característica inovadora da contribuição e com o compromisso firmado de con-correr/correr com - este é o ritmo da nossa marcha - para a erradicação de uma das formas mais graves de violação dos direitos da criança. |
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Marcha Global pela
educação e contra o trabalho infantil foi lançada em fevereiro
de 1997, num encontro entre 27 entidades das Américas, Europa,
Ásia e África, em Haia na Holanda, e a partir daí, em 85
países.
A Marcha quer criar e estruturar um movimento mundial para
sensibilizar e mobilizar a sociedade. A intenção é proteger e
promover os direitos de todas as crianças, especialmente o
direito à educação gratuita e de qualidade, deixando as
crianças livres da exploração econômica e de qualquer
trabalho que prejudique seu desenvolvimento físico, espiritual,
mental, moral ou social.
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No Brasil, uma comissão composta por 30
instituições já está articulada e vem divulgando e
incentivando ações de mobilização pela erradicação
do trabalho infantil em todo o País. A Marcha é uma mobilização mundial que procura a sensibilização social, no sentido de corrigir a concepção equivocada de que o trabalho infantil é formador e corrige injustiças sociais, dando apoio à família e buscando a universalização da educação. |
Para a entidades ligadas à marcha, as crianças são sujeitos de direitos, que precisam ser respeitados em sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, e que devem, para isso, obter prioridade absoluta. E a eliminação do trabalho infantil é condição fundamental para a garantia dos direitos das crianças.
| Todas as formas de exploração de crianças no
trabalho são condenáveis e não devem ser admitidas sob
qualquer forma ou pretexto. As ações de
combate ao trabalho infantil devem, além de promover a
rigorosa fiscalização e punição dos exploradores,
serem eficientes na produção de alternativas de
sobrevivência das crianças e suas famílias,
conjugando-se ações sócio-educativas, de garantia de
renda mínima familiar e acesso imediato à escola. No
entanto, a Marcha reconhece que a erradicação do
trabalho infantil é um processo gradual de articulação
e mobilização e que a principal causa do trabalho
infantil é a pobreza, sendo necessária vontade
política para sua solução. Os esforços desenvolvidos pela sociedade brasileira, os organismos internacionais e pelo governo, devem ser potencializados e integrados em ações que alcancem políticas sociais de longa duração, evitando-se as ações isoladas e pontuais. A combinação de atividades de caráter emergencial com ações de consolidação de serviços permanentes devem ser priorizados. |
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A proposta é:
priorizar
ações que atendam grupos de risco;
ter enfoque
multisetorial e garantir a articulação de todos os segmentos da
sociedade como base para a consolidação de programas em áreas
de risco;
criar alternativas
econômicas para a família;
lembrar que
sanções econômicas e comerciais isoladas podem piorar a
situação econômica e social dos países (e das criianças),
tornando o trabalho infantil invisível e levando-as a
situações de maior risco;
dar prioridade à
ação local, descentralizando políticas e progra-mas;
envolver as
crianças e as famílias na elabo-ração dos programas e
na busca de soluções.
COMO PARTICIPAR
Conversando com as crianças e adolescentes (alunos,
parentes, vizinhos...) sobre o assunto, informando
sobre as conse-qüências do trabalho precoce e os direitos da
infância à educação, lazer, saúde, moradia, convivência
familiar e comunitária, à dignidade e ao respeito;
promovendo
palestras e debates, visando sensibilizar e mobilizar a
sociedade;
promovendo
mutirões mobilizadores para o acesso imediato ao ensino
fundamental;
desenvolvendo
programas de atendimento a crianças e adolescentes no período
em que não estão na escola;
coletando
assinaturas;
criando comissões
locais com representantes de conselhos de direitos e tutelares,
igrejas, trabalhadores, empresários;
articulando e
acompanhando acordos setoriais para estabele-cer planos e
metas locais;
realizando
parcerias com os conselhos de direitos para mobi-lizar os
empregadores pela não utilização da mão-de-obra
infantil, e em favor de ações em benefício das crianças.
| AGENDA DA MARCHA 25/02 (São Paulo) 13/05 (Brasília) 06/06 (Genebra) IMPORTANTE |
As informações para a elaboração deste artigo foram
extraídas da Cartilha Metodológica sobre a Marcha Global,
editada pela Pastoral da Criança, Pastoral do Menor e pela
Associação de Escolas Católicas (AEC).
Mais de 3 milhões
de crianças exploradas no Brasil Segundo dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em
1995 existiam 3 milhões e 800 mil crianças de 5 a 14 anos
trabalhando no Brasil. Deste total, 60% trabalhavam no campo e
40% na cidade.
As idéias românticas sobre o panorama bucólico do campo
não condizem com a realidade da pobreza rural e nem com as
péssimas condições de trabalho a que são submetidas crianças
e adolescentes.
Esses pequenos trabalhadores, expostos às intempéries, têm
longas jornadas de trabalho, recebem pouco pelo que
produzem, vivem precárias condições de moradia e o dramada má
alimentação.
Além disso, são expostos a agentes ambientais agressivos e de
forma não controlada, como agrotóxicos, insetos, cobras,
radiação solar e calor.
São trabalhos penosos que exigem grande esforço físico, feitos
em ritmo acelerado, posturas incorretas e ferramentas
inadequadas. As tarefas são ainda executadas com instrumentos
cortantes e/ou perfurantes. Todos esses fatores acarretam
freqüentes acidentes e doenças, que vão de pequentos cortes e
insolação, à perda permanente de membros e funções, podendo
também levar à morte.
Os indicadores sociais mostram uma clara desvantagem entre as
crianças rurais e as da cidade, nos aspectos de saúde, moradia,
lazer e educação. Há tam-bém o fenômeno da migra-ção
desses trabalhadores para os centros urbanos, em busca de
melhores condições de vida e que acabam engrossando o enorme
contingente de trabalhadores explorados e marginalizados.
Nas grandes cidades, a maior incidência de trabalho
infantil ocorre nas atividades informais (comércio ambulante,
mendicância...), com destaque especial para o trabalho
doméstico dentro e fora do lar. Geral-mente este tipo de
trabalho não recebe remuneração específica e é realizado
para retribuir gastos com educação, alimentação ou vestuário
da criança.
É preciso registrar que as estatísticas são sempre
incom-pletas neste campo. Isto porque grande parte do trabalho
infantil é invisível, ou seja, é ocultado pelas pessoas que
têm medo da punição ou são favoráveis a esta situação.
Muitos fiscais do Ministério do Trabalho e Conselheiros
Tutelares são questionados e até impedidos de realizar seu
trabalho por juízes, promotores, prefeitos e pessoas da
comunidade.
O maior desafio é, sem dúvida, desmistificar a cultura de que o
trabalho na infância é imprescindível para a formação
moral e para a subsistência das famílias pobres. Ele, ao
contrário, gera mais pobreza, ignorância e retrocesso a
relações de exploração e violação dos direitos humanos.
Supervisão: Clóvis Boufleur
Textos: Glaucia Barros Sander e Sueider Nascimento Murta
Edição: Thays Poletto
Conselho Diretor
Pastoral da Criança
Fundação Fé e Alegria
Fundação Grupo Esquel Brasil