Ética e Cidadania na Comunicação

Ontem chegamos euforicamente à Lua, hoje amanhecemos burocraticamente em Marte e, amanhã, talvez queiramos redescobrir o aconchego de nossos espaços domésticos e prestar mais atenção nos efeitos da química do amor em nosso próprio corpo.

Em comunicação, quem sabe conseguiremos encerrar esta década, este século, este milênio, agregando ao lúdico e infantil interesse de lidar com instrumentos e produtos, o encantamento de mergulhar no processo vital de fortalecer as bases de uma ecologia humana?

Chega de Comunicação pela Comunicação. Ou, mais ainda, chega de mitificação da Comunicação. Desvalorizar o discurso sobre a importância da Comunicação não é desvalorizar a importância da Comunicação.

Ao contrário, é viver a essencialidade do processo comunicativo, da mesma forma natural como se considera essencial o ar que se respira, sem discursos, sem modismos costumistas, sem sofisticadas elaborações intelectuais ou tecnológicas.

O que anda faltando ao processo comunicativo antecede a Comunicação porque o que anda faltando mesmo é Ética, Cidadania, Fraternidade, Solidariedade e Eficácia, tendo como base de lançamento a indignação contra a ruindade e, como combustível, o encantamento pela efetiva possibilidade de construção de um mundo melhor.

O que faz diferença para a Humanidade em milhares de mensagens vinculadas em pedras e em papiros? Os textos da Bíblia, hoje organizados em edições, sobrevivem aos tempos e mantêm seus significados por gerações pela importância de seus personagens, pela grandeza das situações relatadas e, enfim, muito mais pelo conteúdo do que pela forma, muito mais pelo que antecede a

Comunicação (isto se torna mais evidente sempre que a Comunicação ganhar o sentido reducionista de veículo, jornais, boletins, revistas, tevês, home-pages, rádios etc - ou de processo comunicativo, jornalismo, publicidade, marketing etc).

Imaginemos a circulação de informações sobre a existência

de pessoas escravizadas. Veiculadas em paredes de cavernas ou pela Internet, estas informações revelam o fracasso de quem ama a liberdade.

Do mesmo modo, os que lidam com crianças e adolescentes precisam se cuidar para que eles e a sua comunicação estejam a serviço de uma nova ordem social pois, neste caso, não há naturalidade. Ou estamos construindo o sucesso ou estamos naturalizando o fracasso.

Portanto, viva a Internet e todo o avanço da informática como instrumento de comunicação. Mas o nosso desafio não é somente sermos eficazes comunicadores na utilização de tantos e contemporâneos meios. Desafio mesmo é sermos, adequadamente, agente do que se comunica como relevante para a ecologia humana.

Demóstenes Romário Filho
Jornalista e membro da Secretaria Executiva do Pacto Minas pela Infância
Este boletim foi impresso com recursos do
Programa Criança Esperança/Rede Globo
Conselho Diretor
Pastoral da Criança
Fundação Fé e Alegria
Fundação Grupo Esquel Brasil