Uma dinâmica extremamente nova tem ocorrido no interior da sociedade civil da maioria dos países. Este fenômeno diz respeito a um imenso e variado conjunto de organizações não-governamentais que têm surgido e ganhado força no exercício de atividades públicas ou auxiliares às funções do estado, principalmente na área social, de defesa de direitos e meio ambiente. Nos países desenvolvidos, várias pesquisas apontam inclusive para a crescente importância econômica do con-junto destas organizações . Estudos americanos revelam que os recursos movimentados por estes organismos estejam em torno U$ 300 bilhões por ano. Além disso, este tem sido um novo campo gerador de empregados. Estima-se que mais de 11 milhões de pessoas trabalham em organizações deste gênero nos EUA, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Hungria e Japão. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, onde o Estado tem enfrentado sérias dificuldades no cumprimento da agenda social, entende-se que sem a complementaridade e apoio a estas organizações é praticamente impossível implementar políticas públicas sociais em nível local. Sabe-se que grande parte do financiamento das entidades brasileiras vem do Governo Federal (estadual e/ou mu-nicipal) mas, além disso, as entidades também recebem dinheiro de agências de cooperação, organizações não governamentais estrangeiras e doações privadas de cidadão e empresas. A Fundação Grupo Esquel Brasil estima que a população brasileira (indivíduos e empresas) realiza anualmente doações superiores a 700 milhões de dólares. Apesar disso, pouco se sabe sobre as organizações sem fins lucrativos no país. Inexistem bases de dados com o número de organismos, informações sobre as fontes de financiamento, número de empregados, voluntários e recursos que movimentam. Através de exemplos como o da campanha de combate à fome do Betinho e das várias entidades que desenvolvem excelentes projetos no atendimento às crianças e adolescentes, observa-se que este é um campo da sociedade civil com um imenso potencial na resolução de problemas sociais. As pesquisas sobre entidades sem fins lucrativos são ainda incipientes, prin-cipalmente pela falta de informações sobre elas. Entretanto, já se pode delinear algumas ques-tões importantes para o fortalecimento desse setor. A primeira delas seria a criação de uma legislação específica de regulamentação e controle social das entidades, que permita ao mesmo tempo um ambiente de florescimento de iniciativas no campo da sociedade civil. Outra questão importante diz respeito às formas de financiamento e mecanismos de sustentabilidade das organizações, tendo em vista que os atuais mecanismos disponíveis têm se apresentado de forma pouco eficaz, ou são caracterizados por padrões clientelistas que têm marcado as relações das entidades com o Estado brasileiro. Para que haja uma mobilização para a discussão destas questões acima é fundamental que existam bases de informação sobre as entidades. Por se tratar de um conjunto extremamente diferenciado de organizações, outro obstáculo que se apresenta é a dificuldade de articulação para a formação de uma agenda comum que contemple as demandas específicas de cada grupo. No caso das instituições que cuidam da infância, é muito importante que se conheça o perfil das organizações que trabalham nesta área, e que existam informações sobre o número e tamanho de entidades, números de empregados, voluntários, fontes de financiamento, projetos desenvolvidos, principais dificuldades enfrentadas, nível de articulação com os conselhos tutelares e com o fundo da infância e do ado-lescente. A formação de um cadastro e, conseqüentemente, de uma rede contendo este tipo de informação torna pos-sível a formação de parcerias, a troca de experiências entre as entidades da sociedade civil, empresários e governo. A criação de cadastros de nível federal ou mesmo estadual tem um custo muito alto e muitas entidades desconhecem a importância de fornecer informações para os bancos de dados. Deste modo, é fundamental que a sociedade civil e as entidades participem deste processo de conscientização. Entidades na área de infância existem em praticamente todos os municípios do país. Entendemos que, se alguma entidade ou morador se responsabilizasse pela tarefa de cadastrar as entidades localmente, em pouco tempo teríamos o perfil deste conjunto. Desta maneira, haveria uma maior mo-bilização junto aos conselhos, divulgação dos fundos municipais, assim como uma maior transparência na utilização e eficácia dos recursos. Com este esforço, comunidades, organizações e governos se beneficiariam.